O crédito sempre foi uma engrenagem essencial para o funcionamento do agronegócio brasileiro. Da preparação do solo à colheita, passando pela aquisição de insumos e maquinário, tudo depende da confiança que o produtor rural conquista junto ao sistema financeiro. No entanto, essa confiança tem sido abalada por um fenômeno que cresce de forma silenciosa e preocupante: a inadimplência rural.
Nos últimos meses, os índices de inadimplência entre produtores têm subido de forma consistente, refletindo os desafios enfrentados pelo setor. No segundo trimestre de 2025, a Serasa Experian apontou que cerca de 8% da população rural brasileira apresentava dívidas em atraso. Essa elevação afeta não apenas a concessão direta de crédito rural, mas compromete também a saúde dos títulos do agronegócio, como as Letras de Crédito do Agronegócio (LCA) e os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA).
Esses títulos são instrumentos fundamentais para a captação de recursos privados. Quando lastreados em operações de crédito com produtores inadimplentes, eles se tornam menos atrativos para investidores. O risco de calote, agora mais evidente, exige taxas de retorno mais altas e torna o financiamento mais caro — ou até inacessível — para uma parte significativa dos produtores. O reflexo disso já aparece nos dados do Banco do Brasil, principal agente financeiro do setor, que registrou inadimplência rural de 5,34% no terceiro trimestre de 2025, com impacto direto em seus resultados.
Com o aumento da percepção de risco, o mercado adota uma postura mais cautelosa. A concessão de crédito rural e agroindustrial caiu 16% no primeiro semestre deste ano, comparado ao mesmo período de 2024. Foram R$ 83 bilhões liberados, contra R$ 99 bilhões no ano anterior. Embora o número de contratos tenha crescido — indicando uma busca ativa dos produtores por financiamento — o valor médio caiu 22,1%. Produtores estão pedindo menos e sendo avaliados com mais rigor, o que evidencia o aperto no acesso ao crédito.
Essa retração no financiamento, ainda que compreensível do ponto de vista das instituições financeiras, traz consequências sérias. Reduz a capacidade produtiva, limita investimentos em tecnologia e inovação e dificulta a sobrevivência de pequenos e médios produtores, especialmente em regiões mais vulneráveis.
Além disso, a inadimplência força a abertura de negociações complexas: reestruturações de dívidas, alongamento de prazos e a exigência de novas garantias passam a fazer parte da rotina de muitos produtores. Esse processo, que deveria ser exceção, vem se tornando uma regra em diversas operações, gerando insegurança jurídica e incerteza no mercado de capitais voltado ao agro.
Diante desse cenário, torna-se indispensável fortalecer mecanismos de governança e compliance no acesso ao crédito rural. É preciso ampliar a transparência na concessão e monitoramento dos financiamentos, além de criar modelos de garantia mais adaptados às realidades regionais. O setor também precisa avançar no uso de tecnologias para monitorar riscos climáticos, produtivos e financeiros em tempo real, o que permitiria uma gestão mais proativa das carteiras.
Por fim, o produtor rural deve ser visto como parceiro estratégico — e não apenas como tomador de crédito. A construção de soluções estruturadas e sustentáveis depende do equilíbrio entre confiança, responsabilidade e previsibilidade. Proteger a solidez dos títulos de crédito do agronegócio é, portanto, preservar a própria base do modelo de financiamento que sustenta a produção no campo.
Emília Vilela é advogada e especialista em Direito Civil, Processual Civil, Falência e Recuperação de Empresas e sócia do escritório Oliveira Castro Advocacia.














