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Capa da 28ª Edição

O PREÇO DA GUERRA

Imagem: reprodução/Marinha Real da Tailândia

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A escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã está provocando turbulência nos mercados internacionais de energia, fertilizantes e transporte marítimo. Como em outras crises geopolíticas no Oriente Médio, o primeiro reflexo aparece no petróleo — e, a partir dele, espalha-se por cadeias produtivas inteiras.

No caso da agricultura, os efeitos costumam ser amplificados, já que o setor depende intensamente de combustíveis, fertilizantes e logística global. Para o produtor brasileiro, o choque veio em um momento particularmente sensível: em pleno período de colheita da soja e de plantio do milho safrinha, quando a demanda por diesel, frete e insumos está no pico.

Nos primeiros dias após a intensificação das tensões, o preço internacional do petróleo registrou forte volatilidade e reacendeu temores de uma nova rodada de inflação global. No Brasil, antes mesmo de qualquer reajuste relevante nas refinarias, começaram a surgir aumentos no preço do óleo diesel nos postos, além de relatos de problemas de abastecimento em regiões-chave para o agronegócio.

Levantamentos de mercado apontaram que o diesel S-10 chegou a subir cerca de 7,7% nos postos na primeira semana de março, mesmo sem alteração imediata nos preços praticados pela estatal petrolífera nas refinarias. Em alguns estados, reajustes pontuais chegaram a até R$ 0,90 por litro, impulsionados pela expectativa de alta do petróleo, pelo aumento dos custos de importação do combustível e pelo temor de descontinuidade temporária no fornecimento.

No Sul do país, produtores rurais passaram a relatar dificuldade de abastecimento justamente no período mais intenso da colheita de grãos. A pressão sobre a demanda levou a Petrobras a realizar leilões extraordinários de diesel no Rio Grande do Sul, colocando no mercado cerca de 20 milhões de litros adicionais para atender distribuidores e evitar escassez regional. Em algumas localidades, cooperativas e associações de produtores passaram a organizar compras coletivas para tentar garantir volume e preço em meio à instabilidade.

Diante da escalada dos preços e do impacto direto sobre o transporte de cargas e o agronegócio, o governo brasileiro anunciou medidas emergenciais. Entre elas, a eliminação temporária dos tributos federais PIS e Cofins sobre o diesel e a criação de um mecanismo de subvenção para importadores e refinadores, com potencial de reduzir o preço do combustível em aproximadamente R$ 0,64 por litro. A estratégia busca atenuar a pressão de custos sobre o frete e evitar repasses mais fortes aos alimentos e demais bens transportados por rodovias.

Mesmo com essas iniciativas, porém, os preços no varejo seguem instáveis. Nos últimos anos, a rede de postos diretamente vinculada à estatal — a antiga “BR Distribuidora” —, que funcionava como referência e ajudava a moderar oscilações de mercado, foi privatizada. Com um mercado mais pulverizado e a Petrobras sem o mesmo espaço de atuação na ponta, o governo enfrenta mais dificuldade para conter reajustes considerados abusivos, especialmente em regiões com menor concorrência entre distribuidoras. Produtores de arroz, no Rio Grande do Sul, já relatam ter que comprar diesel a R$ 10 o litro ou mais — ante cerca de R$ 6 antes da crise, o que pressiona ainda mais a rentabilidade em uma atividade de margens tradicionalmente apertadas.

Lá fora, com o cenário de instabilidade no Golfo Pérsico, os mercados passam imediatamente a precificar riscos de interrupção no fornecimento de energia, sobretudo com o comprometimento do tráfego no Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do planeta. Esse estreito é a principal saída do Golfo Pérsico para o mar aberto e, historicamente, qualquer ameaça de bloqueio ou restrição provoca reação imediata nos preços de petróleo, gás e derivados.

Por esse corredor passa uma parcela significativa do petróleo consumido no mundo e também grandes volumes de fertilizantes nitrogenados produzidos na região. Ureia e amônia, por exemplo, saem em navios que cruzam diariamente o Estreito de Ormuz em direção a mercados da Ásia, da Europa e das Américas. Qualquer ameaça ao fluxo comercial no local costuma provocar reações rápidas nos mercados agrícolas, tanto pelo lado dos custos de produção quanto pela percepção de risco em relação à oferta de alimentos.

Apesar da dimensão global do problema, os efeitos diretos para o agronegócio brasileiro tendem a ser menos intensos do que em outras regiões fortemente dependentes daqueles fornecedores específicos. O Brasil consolidou nas últimas décadas uma das agriculturas mais competitivas do mundo, baseada em tecnologia tropical, grande escala produtiva e forte capacidade exportadora. Essa posição confere ao país maior resiliência diante de choques externos, ainda que não o imunize totalmente contra movimentos de preços no mercado internacional.

Ainda assim, alguns impactos indiretos começam a aparecer e são monitorados com atenção pelo setor. Cooperativas, tradings e consultorias agrícolas já incorporam cenários de petróleo mais caro, fretes pressionados e insumos sujeitos a episódios de volatilidade, o que exige mais planejamento na gestão de custos e na formação de preços.

O primeiro canal de transmissão está ligado ao custo da energia. A produção agrícola moderna depende de combustíveis em praticamente todas as etapas do processo produtivo — do preparo do solo à colheita, passando pelo transporte da safra até os portos e centros de consumo. No Brasil, o diesel é o principal combustível utilizado em máquinas agrícolas e caminhões que escoam grãos por longas distâncias, em um país de dimensão continental e com forte concentração da produção em áreas distantes dos portos.

Quando o petróleo sobe no mercado internacional, o efeito tende a chegar ao campo na forma de fretes mais caros e custos operacionais maiores. Como a logística brasileira ainda depende majoritariamente do transporte rodoviário, qualquer aumento no preço do diesel repercute rapidamente nas planilhas do produtor, encarece o escoamento da produção e reduz margens, especialmente para agricultores que não têm contratos de venda travados ou proteção via mercado futuro.

Outro ponto sensível envolve os fertilizantes. Embora seja uma potência agrícola, o Brasil ainda depende fortemente da importação de insumos para sustentar sua produtividade. Estima-se que cerca de 80% a 85% dos fertilizantes utilizados no país sejam comprados no exterior, índice que se mantém elevado apesar de planos oficiais para ampliar a produção doméstica.

O Oriente Médio figura entre os importantes fornecedores globais de nutrientes agrícolas, especialmente ureia e amônia, insumos essenciais para culturas como milho, trigo e algodão. Parte relevante desse comércio internacional passa justamente pelo Golfo Pérsico e pelo Estreito de Ormuz. Caso o conflito provoque restrições prolongadas ao transporte marítimo na região ou leve exportadores a suspender temporariamente embarques, o mercado internacional pode enfrentar períodos de maior volatilidade nos preços desses produtos, com impactos em cascata sobre o custo dos alimentos.

Até o momento, no entanto, não há sinais de ruptura significativa no abastecimento global. O comércio de fertilizantes continua operando, ainda que sob um ambiente de maior cautela entre tradings e compradores, com prazos mais curtos, renegociação de contratos e uso mais intenso de mecanismos de seguro e gestão de risco de preço.

Para o Brasil, a diversificação de fornecedores ajuda a reduzir parte desses riscos. Nos últimos anos, o país ampliou suas importações de fertilizantes provenientes de diferentes regiões, incluindo Canadá, Rússia, Marrocos e países do Norte da África, além de manter fluxos relevantes com nações da Ásia. Essa rede mais ampla de parceiros comerciais dá ao agronegócio brasileiro alguma margem de manobra em momentos de crise localizada.

Essa estratégia ganhou força após as turbulências registradas no mercado internacional durante a guerra entre Rússia e Ucrânia, quando o setor agrícola global enfrentou forte aumento no custo dos insumos e incertezas quanto à disponibilidade de cargas. Desde então, empresas e produtores brasileiros passaram a adotar uma postura mais preventiva, ampliando estoques, antecipando compras sempre que possível e acompanhando mais de perto a evolução dos conflitos que podem afetar o fluxo de commodities. Essa mudança de comportamento tornou o sistema agrícola nacional menos vulnerável a choques imediatos, ainda que não elimine totalmente o risco de novos episódios de estresse.

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Além disso, o calendário agrícola brasileiro contribui para reduzir impactos de curto prazo. Grande parte dos fertilizantes utilizados na safra de grãos 2025/26 já havia sido adquirida meses antes da escalada das tensões no Oriente Médio, em contratos fechados ainda em um ambiente de preços menos pressionados. Isso significa que eventuais efeitos mais fortes sobre preços ou disponibilidade tendem a aparecer apenas nos próximos ciclos agrícolas, especialmente na safra que começará a ser plantada no segundo semestre.

Outro fator que limita o impacto direto da guerra sobre o agronegócio brasileiro é a própria estrutura da produção nacional. O país tornou-se, ao longo das últimas décadas, um dos maiores fornecedores de alimentos do planeta, combinando ganho de produtividade, incorporação de novas áreas e diversificação de culturas.

Soja, milho, carnes, açúcar, café e algodão colocam o Brasil no centro do comércio agrícola internacional. Em momentos de instabilidade global, essa posição muitas vezes se transforma em vantagem competitiva: se conflitos geopolíticos elevam os custos de produção em outras regiões ou reduzem a oferta internacional de alimentos, grandes exportadores agrícolas tendem a ganhar espaço no mercado mundial e a negociar volumes maiores, ainda que em um ambiente de maior risco.

Essa dinâmica já foi observada em crises anteriores, como durante a pandemia de Covid-19 e na guerra entre Rússia e Ucrânia. Em períodos de escassez ou aumento de preços internacionais, países com forte capacidade produtiva conseguem ampliar suas exportações, reforçar sua presença em mercados estratégicos e, em alguns casos, conquistar clientes que mantêm relações comerciais mesmo após a normalização das condições globais.

Ainda assim, especialistas alertam que o atual conflito reforça uma tendência cada vez mais evidente na economia global: a crescente ligação entre segurança energética, fertilizantes e produção de alimentos. A agricultura moderna depende de cadeias industriais complexas e longas, que cruzam fronteiras e envolvem setores como petróleo, gás, indústria química, transporte marítimo, seguros e financiamento internacional.

Fertilizantes são produzidos a partir de gás natural, máquinas agrícolas utilizam combustíveis fósseis e o comércio internacional de alimentos depende de transporte marítimo em larga escala, com rotas que passam por pontos estratégicos como o Estreito de Ormuz. Quando tensões geopolíticas afetam esses setores simultaneamente, todo o sistema alimentar global passa a operar sob maior pressão, com risco de alta de custos, desorganização logística e aumento da vulnerabilidade de países importadores.

Nesse contexto, cresce no mundo a discussão sobre segurança alimentar como tema estratégico de Estado. Países importadores de alimentos buscam reduzir vulnerabilidades, diversificando fornecedores, estimulando estoques reguladores e investindo em produção doméstica quando possível, enquanto grandes produtores procuram garantir acesso estável a insumos essenciais, como fertilizantes e energia, para não comprometer sua competitividade.

No Brasil, essa discussão também vem ganhando espaço. Nos últimos anos, iniciativas para ampliar a produção doméstica de fertilizantes e reduzir a dependência externa voltaram à pauta de governos e empresas do setor, com planos que preveem novos projetos de mineração, ampliação da capacidade industrial e incentivos à pesquisa em tecnologias alternativas. O debate envolve ainda questões ambientais, licenciamento e necessidade de investimentos de longo prazo, o que torna o avanço mais lento do que o desejado pelo setor produtivo.

O objetivo é fortalecer a autonomia produtiva de um país que já se consolidou como potência agrícola, mas ainda depende de insumos estrangeiros para manter seus níveis de produtividade. A capacidade de produzir parte maior dos fertilizantes em território nacional é vista como um dos pilares para reduzir a exposição a crises internacionais recorrentes.

A guerra no Oriente Médio não altera essa realidade de forma imediata. O agronegócio brasileiro segue operando com relativa estabilidade, mantém sua posição de destaque no comércio internacional de alimentos e, até aqui, convive mais com a volatilidade de preços do que com falta efetiva de produtos. Mas o conflito funciona como um novo alerta sobre a fragilidade das cadeias globais que sustentam a produção agrícola e sobre a necessidade de políticas de longo prazo para mitigar riscos.

Em um mundo cada vez mais interligado, guerras que começam em regiões distantes podem, direta ou indiretamente, influenciar custos de produção, fluxos comerciais e preços de alimentos no supermercado brasileiro. Para o Brasil, que alimenta uma parcela significativa da população mundial, compreender e antecipar esses movimentos tornou-se parte essencial da estratégia de um agronegócio que já ocupa posição central na economia global e que precisa conciliar competitividade, segurança de abastecimento e previsibilidade para o produtor no campo.

 

Ormuz pesa no bolso do produtor

 

Este navio tailandês foi atingido pelo Irã no Estreito de Ormuz, no dia 11 de fevereiro

Imagem: reprodução/Marinha Real da Tailândia

O Estreito de Ormuz, que liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e, daí, ao Oceano Índico, é um braço de mar que fica a milhares de quilômetros do Brasil, mas pode pesar direto no bolso do produtor aqui no país. Trata-se de uma passagem estreita — no ponto mais afunilado, tem algo em torno de 30 a 40 quilômetros de largura —, com canais de navegação de apenas poucos quilômetros para cada sentido dos navios, por onde escoam cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia — algo entre 20% e 30% do comércio mundial — e aproximadamente 20% do gás natural liquefeito negociado no planeta, além de grandes volumes de fertilizantes como ureia e amônia. Fica a mais de 12 mil quilômetros do Brasil, mas qualquer tiro por lá atinge quase imediatamente a bomba de diesel e o saco de adubo no interior do país.

O Irã, ao atacar navios e colocar minas no estreito, leva as embarcações a evitarem a região ou a passarem a cobrar mais caro para atravessar, dado o risco; com isso, o preço do petróleo sobe, o frete internacional encarece e o diesel sobe nas refinarias e nos postos aqui do outro lado. O resultado é conhecido do produtor: custo maior para colher soja, plantar milho safrinha e escoar a safra em caminhões por milhares de quilômetros até os portos.

No caso dos fertilizantes, o impacto é ainda mais sensível. O Brasil hoje praticamente não produz ureia: em 2025 e 2026, 100% da demanda foi coberta por importações, em um volume anual na casa de 5 a 6 milhões de toneladas. Desse total, algo em torno de 40% veio de países do Oriente Médio e da região do Golfo Pérsico (Irã, Catar, Arábia Saudita e Barein), o que significa perto de 2 a 2,5 milhões de toneladas que passam, direta ou indiretamente, pelo Estreito de Ormuz antes de chegar ao Brasil.

Se o estreito fica sob risco, a ureia encarece, os prazos de entrega alongam e o produtor precisa decidir se compra adubo mais caro, reduz dose ou muda estratégia de manejo. Em resumo: um corredor de água a milhares de quilômetros de distância ajuda a definir quanto vai sobrar por hectare no fim da safra lá no interior do Brasil.

 

Frete em guerra, comida mais cara

A guerra no Oriente Médio deixou de ser apenas um conflito distante para virar variável concreta no custo da comida e no risco de abastecimento no Brasil. A escalada do conflito na região levou grandes armadores globais a desviar navios pelo Cabo da Boa Esperança, o que adiciona de 10 a 14 dias nas viagens e pode elevar o custo do frete marítimo entre 300% e 500%, segundo de especialista. Em paralelo, o frete de navios‑tanque na rota entre Oriente Médio e China saltou para o maior nível em seis anos, ultrapassando 200 mil dólares por dia em alguns contratos, de acordo com dados compilados por provedores internacionais de frete.

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Esse choque logístico começa no oceano, mas termina no prato. À medida que aumentam os riscos para atravessar zonas de conflito, sobem também os custos de seguros e de combustível, e os produtos transportados nas águas chegam mais caros aos portos. Especialistas em comércio exterior calculam que, em determinadas rotas, sobretaxas de “emergência por conflito” já chegam a até 4 mil dólares por contêiner, valor que acaba embutido no preço de tudo o que depende de navio — de máquinas agrícolas a fertilizantes, de trigo a insumos industriais. No caso dos grãos, o frete marítimo, que normalmente representa algo como 5% a 10% do valor da carga, passa a consumir uma fatia maior da receita, comprimindo margens de exportadores e pressionando o preço final pago pelos importadores.

Dentro do Brasil, a pressão vem em outra frente: combustível. Com o barril de petróleo sob pressão desde o início da guerra, as projeções de analistas ouvidos por serviços de economia apontam que, se o conflito se prolongar, o repasse para o diesel tende a aparecer com mais força ao longo dos próximos meses, mesmo com medidas temporárias de alívio tributário. O transporte responde por uma fatia relevante do preço dos alimentos — em algumas cadeias, frete e diesel podem somar de 15% a 30% do custo até a gôndola —, o que faz da guerra no Golfo um fator adicional de pressão sobre a inflação no varejo brasileiro. Estimativas compiladas por veículos econômicos indicam que consumidores devem sentir o impacto nos preços dos alimentos em uma janela de um a três meses, a depender da intensidade e da duração do conflito.

Os fertilizantes formam o segundo vértice desse triângulo de pressão. Relatório do banco Rabobank mostra que a escalada entre Estados Unidos, Israel e Irã adicionou um “prêmio geopolítico” aos mercados agrícolas e já encarece insumos. Nas primeiras 48 horas após os ataques mais intensos ao Irã, os preços internacionais da ureia no Norte da África — referência para parte das negociações globais — subiram quase 20%, enquanto o gás natural na Europa, insumo‑base da produção de nitrogenados, chegou a avançar cerca de 45%. Para um país como o Brasil, que importa praticamente toda a ureia que consome e ainda depende de fornecedores do Golfo, esse movimento significa custo de produção maior em 2026, mesmo sem garantia de alta proporcional nas cotações de soja, milho e carnes.

É nesse ponto que o tema sai da esfera dos custos do agro e entra no terreno da segurança alimentar. O Programa Mundial de Alimentos da ONU alertou, em comunicado recente, que o aumento repentino dos preços de alimentos e combustíveis, impulsionado pela escalada no Oriente Médio, pode desencadear um efeito dominó e agravar a fome entre populações vulneráveis em várias regiões do planeta. Países pobres, altamente dependentes de importações de grãos e fertilizantes, são os mais expostos a colheitas menores e estoques apertados se os insumos permanecerem caros.

O Brasil aparece nesse cenário com uma dupla condição. De um lado, é um dos poucos grandes produtores capazes de ampliar exportações de soja, milho, carnes e açúcar em um ambiente de oferta global tensionada, o que aumenta sua responsabilidade como fornecedor de alimentos. De outro, continua vulnerável à volatilidade do diesel e à dependência externa de adubos, o que deixa o custo da safra e o preço da comida cada vez mais sensíveis a mísseis disparados a milhares de quilômetros de distância. Entre o risco de inflação e o risco de desabastecimento, a guerra no Golfo recoloca na agenda temas como política nacional de fertilizantes, investimentos em logística e mecanismos de proteção de renda do produtor — peças centrais de uma estratégia de segurança alimentar em um mundo que ficou mais instável.

 

O lado bom da guerra

O lado “bom” de guerras existe, mas vem com manual de uso. Choques geopolíticos que encarecem custos e tiram concorrentes do jogo costumam abrir espaço para o Brasil nas exportações de soja, milho, carnes e açúcar. Em 2022, no rastro da guerra na Ucrânia, as vendas externas brasileiras de milho chegaram a saltar perto de 190% em relação a 2021, impulsionadas por safra recorde e pela saída parcial de Ucrânia e Rússia do mercado. O episódio consolidou o país como forneceder-reserva de grãos em momentos de crise.

Na atual escalada no Oriente Médio, os sinais se repetem. Estudos lembram que, em 2025, o Brasil exportou 12,4 bilhões de dólares em produtos agrícolas para países do Oriente Médio, o equivalente a 7,4% de todas as exportações do setor, com Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes entre os principais destinos. Em paralelo, dados da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira mostram que, mesmo após um recuo em 2025, as vendas do agronegócio aos países árabes ainda somaram cerca de 16 bilhões de dólares, respondendo por uma fatia relevante da pauta do agro. No milho, a exposição é ainda mais clara: o Irã foi o maior comprador do cereal brasileiro em 2025, com cerca de 9 milhões de toneladas, algo como 22% de todo o milho exportado pelo país naquele ano — participação que tende a se manter em 2026 se não houver ruptura prolongada nas rotas.

A tensão também mexe com preços. Desde o início dos ataques mais intensos no Golfo, soja e milho passaram a registrar altas na Bolsa de Chicago sempre que o petróleo rompe novas resistências. No dia 8 de março, por exemplo, com o Brent acima de 100 dólares, os contratos de milho para maio de 2026 subiam quase 1% e a soja mais de 1,2% em relação ao pregão anterior. Para um exportador que vende milhões de toneladas, movimentos dessa ordem já significam alguns dólares a mais por tonelada, abrindo janela para travar preços em patamar mais alto.

Mas essa “boa notícia” vem cercada de riscos. A mesma guerra que agrega prêmio às commodities agrícolas também torna fretes e seguros mais caros e imprevisíveis, além de manter fertilizantes e combustíveis sob pressão, o que encarece o custo da próxima safra. Relatórios recentes apontam que o desvio de rotas no Oriente Médio pode elevar o frete marítimo em até 300% ou 500% em alguns trajetos, enquanto o prêmio de risco de guerra e os seguros encarecem o transporte de grãos, carnes e insumos. Na prática, parte do ganho de preço pode ser corroída por adubo, diesel e frete mais caros, deixando a margem do produtor dependente de decisões de câmbio e de travas bem feitas.

Por isso, especialistas em gestão de risco recomendam ao produtor e às cooperativas uso de ferramentas de proteção — hedge em bolsas, contratos a termo com indústrias e tradings, diversificação de mercados compradores — para não ficar refém de um único destino mais exposto ao conflito. A geopolítica dos alimentos amplia as oportunidades para o agro brasileiro, mas também eleva o nível de complexidade: quem souber navegar esse cenário de preços altos e riscos multiplicados pode sair na frente, desde que trate a guerra não como bonança garantida, e sim como um teste de maturidade em gestão comercial e financeira.

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