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QUEM ALIMENTA O MUNDO DECIDE O JOGO

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Enquanto Estados Unidos e China disputam quem comanda o século, o Brasil tem a chance de se consolidar como quem alimenta o planeta. A frase pode soar grandiosa, mas os dados de abril de 2026 a sustentam com precisão. O agronegócio brasileiro não está apenas exportando mais. Está ocupando um espaço estratégico que nenhum outro país do mundo reúne condições de preencher com a mesma escala, regularidade e competitividade. E esse espaço foi aberto, em grande medida, pela maior guerra comercial da história recente.

A disputa entre Washington e Pequim, redesenhou silenciosamente o mapa do comércio agrícola mundial. Com tarifas cruzadas que chegaram a 145% sobre produtos americanos na China e 125% em retaliação, o fluxo global de grãos, proteínas e oleaginosas precisou se reorganizar em tempo real. E o Brasil foi o principal beneficiário desse rearranjo, não por acaso, mas por ter construído, ao longo de décadas, a capacidade produtiva e a confiabilidade de fornecimento que o momento exige.

Segundo análise publicada pelo Financial Times e amplamente referenciada pelo setor, desde o início da primeira guerra comercial da era Trump, a participação dos Estados Unidos nas importações alimentares da China caiu de forma consistente, enquanto a participação brasileira cresceu de 17,2% para 25,2% entre 2016 e 2023, movimento que se intensificou nos ciclos seguintes. Esse deslocamento não é conjuntural. É estrutural. A China aprendeu, na prática, que depender de um único fornecedor com quem disputa poder geopolítico é uma vulnerabilidade inaceitável para um país de 1,4 bilhão de pessoas.

O lugar que ninguém mais ocupa

A China pode dominar a robótica, os chips e o 5G, mas depende do mundo, e sobretudo do Brasil, para produzir o alimento que precisa. Com terras agrícolas limitadas e uma população de 1,4 bilhão de pessoas, Pequim traçou meta de autossuficiência apenas para arroz e trigo. Soja e milho, essenciais para sua gigantesca indústria de ração e proteínas animais, são importados em larga escala. E nesse campo, o Brasil tornou-se insubstituível. A soja brasileira é mais competitiva, vem de um território livre de tensões militares e sem imposições de condicionantes geopolíticos às negociações. Essa combinação, em um mundo fragmentado, vale mais do que qualquer tarifa preferencial.

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Os números de abril confirmam essa posição. As exportações de soja projetadas para o mês superam 16,6 milhões de toneladas, alta de 23,5% sobre o mesmo período de 2025. O agronegócio brasileiro fechou o primeiro trimestre histórico com mais de US$ 38 bilhões em exportações e superavit de US$ 33 bilhões, com a China respondendo por 29,8% da pauta, totalizando US$ 11,33 bilhões, alta de 4,7% frente ao primeiro trimestre de 2025. Além da soja, a carne bovina, a suína, o café e o algodão ampliaram presença em novos mercados. Índia, Filipinas, México, Tailândia, Japão e Turquia figuraram entre os destinos que mais cresceram no período, indicando que a diversificação de compradores avança em paralelo ao aprofundamento da parceria com a China.

Há ainda um capítulo novo nessa história. Com a redução das compras chinesas de sorgo dos Estados Unidos, impactadas pelas tarifas retaliatórias de Pequim, o protocolo entre Brasil e China para viabilizar exportações brasileiras do grão foi assinado, com previsão de início dos embarques ao longo de 2026. Se confirmado, o sorgo adicionará um terceiro produto relevante à lista de grãos estratégicos para o mercado asiático, ao lado de soja e amendoim. Cada novo produto que entra nessa rota amplia a interdependência e reduz a reversibilidade da relação comercial. O Brasil não vende apenas commodities à China. Vende segurança alimentar. E esse é o ativo mais valorizado em um mundo instável.

A posição que exige estratégia, não apenas produção

Ocupar esse espaço, porém, não é garantia automática de resultado. O Brasil enfrenta um paradoxo que precisa ser nomeado com clareza: quanto mais estratégico se torna para o mundo, maior é a responsabilidade de converter essa posição em política consistente de longo prazo. Especialistas alertam que oportunidades criadas por tensões comerciais internacionais podem ser temporárias. Mudanças nas políticas tarifárias ou acordos entre grandes potências, como os que já se desenhavam entre Washington e Pequim ao longo do primeiro trimestre de 2026, podem alterar novamente os fluxos de comércio. A janela está aberta. Mas janelas fecham.

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Há também um risco de concentração que merece atenção. A dependência crescente de um único comprador, a China absorve cerca de 52% do volume de soja importado do Brasil, é uma vantagem no presente, mas uma vulnerabilidade potencial no futuro. Se o país souber preservar sua estabilidade institucional e sua imagem de produtor seguro, essa posição se tornará um ativo estratégico não apenas econômico, mas geopolítico. O inverso também é verdadeiro: instabilidade regulatória, insegurança jurídica no campo e ausência de política agrícola consistente podem corroer, em poucos ciclos, uma posição que levou décadas para ser construída.

O que o cenário de abril de 2026 revela, em definitivo, é que o agronegócio brasileiro deixou de ser apenas um setor econômico relevante e passou a ser um ativo geopolítico de primeira ordem. Os Estados Unidos já perceberam isso: a Lei de Autorização de Inteligência americana para o ano fiscal de 2026 incluiu dispositivo determinando investigação sobre a influência chinesa no agronegócio brasileiro, uma sinalização inequívoca de que Washington enxerga o campo brasileiro como variável estratégica na disputa global por segurança alimentar.

Estar no centro desse tabuleiro é uma oportunidade histórica. Mas oportunidade sem estratégia é apenas circunstância. O Brasil que alimenta o mundo precisa, agora, de um projeto à altura da posição que ocupa, em infraestrutura logística, abertura de mercados, agregação de valor e governança do setor. Produzir em escala recorde é o que o campo brasileiro já sabe fazer. O próximo passo é transformar escala em protagonismo sustentado. E esse passo é político, institucional e estratégico, não apenas agronômico.

Isan Rezende

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