Durante muito tempo, planejar uma safra significava olhar principalmente para dentro da porteira. O produtor calculava sementes, fertilizantes, defensivos, diesel, máquinas, crédito, produtividade esperada e preço provável da commoditie. Essa conta continua indispensável, mas deixou de ser suficiente. Hoje, antes mesmo de a primeira semente chegar ao solo, decisões tomadas a milhares de quilômetros da fazenda já podem alterar o custo de produção e a margem esperada.
A geopolítica entrou definitivamente no planejamento da safra. Washington, Pequim, Bruxelas, Moscou e o Oriente Médio passaram a influenciar quando comprar, de quem comprar, como financiar, quanto proteger e para onde vender. Guerras, tarifas, petróleo, fertilizantes, câmbio, rotas marítimas, barreiras comerciais e exigências ambientais deixaram de ser temas restritos à política internacional. Viraram variáveis da atividade rural.
A dependência brasileira de insumos externos torna essa relação evidente. A CNA aponta que 93% dos fertilizantes utilizados pelo Brasil em 2025 foram importados. Para a safra 2026/27, câmbio, incertezas geopolíticas e custos logísticos voltaram a pressionar preço e pioraram a relação de troca. Entre janeiro e abril, o volume importado de nitrogenados e fosfatados caiu 4%, enquanto o valor desembolsado aumentou 16%.
Guerra longe, custo perto
A guerra entre Rússia e Ucrânia mostrou como um conflito distante pode atingir a fazenda brasileira. As tensões no Oriente Médio reforçaram a vulnerabilidade. O petróleo afeta diesel, fretes e energia. O gás natural é fundamental para fertilizantes nitrogenados. Rotas marítimas estratégicas interferem tanto no abastecimento de insumos quanto no escoamento das commodities.
Isso muda a lógica da compra. Não basta perguntar qual fornecedor oferece o menor preço. É preciso avaliar origem, disponibilidade, prazo, logística, câmbio e risco de interrupção. Em determinadas situações, antecipar compras, diversificar fornecedores ou formar estoques estratégicos pode valer mais do que esperar uma redução de preço. Em outras, preservar caixa será a melhor decisão.
O mesmo vale para a comercialização. A rivalidade entre Estados Unidos e China pode abrir oportunidades para produtos brasileiros, mas uma aproximação entre as duas potências pode alterar rapidamente os fluxos. O Brasil não pode construir sua competitividade dependendo de disputas entre terceiros. Precisa competir por produtividade, qualidade, logística e confiabilidade, ao mesmo tempo em que amplia mercados.
Do custo por hectare à proteção da margem
A conta das sacas necessárias para pagar o hectare continua importante, mas precisa ganhar novas camadas. Quanto do fertilizante já está comprado? Qual é a exposição cambial? Quanto da produção está comercializada? Existe hedge de preços? Qual é o custo efetivo do crédito? Há seguro adequado? Qual a capacidade de armazenagem? Qual será o frete? E quanto da margem permanece exposta a acontecimentos internacionais?
O produtor não precisa transformar a fazenda em uma mesa de operações financeiras. Precisa conhecer suas exposições. Barter, contratos futuros, opções, proteção cambial, seguro rural e crédito devem integrar uma estratégia de proteção da margem. Produzir muito e descobrir depois que o resultado foi consumido por juros, câmbio, frete ou queda de preços não é eficiência econômica.
Nesse ambiente, o produtor mais competitivo não será necessariamente aquele que conseguir o insumo mais barato ou a maior produtividade física. Será aquele que souber transformar produtividade, previsibilidade de custos, gestão financeira e eficiência operacional em rentabilidade.
Sustentabilidade também entrou na conta
O planejamento também precisa considerar para quem será vendida a produção. União Europeia e outros mercados ampliam exigências ambientais, sanitárias e de rastreabilidade. Uma decisão tomada antes do plantio pode determinar, meses depois, se o produto terá acesso a determinado comprador.
Não basta afirmar que o agro brasileiro é sustentável. Será cada vez mais necessário comprovar. Rastreabilidade, documentação, georreferenciamento, métricas ambientais e sistemas auditáveis estão se tornando instrumentos comerciais. Parte dessas exigências responde a preocupações legítimas; outra pode assumir características de barreira não tarifária. A resposta brasileira deve ser ciência, transparência e comprovação.
O Brasil possui vantagens em práticas de agricultura tropical, bioinsumos e energia renovável. O desafio é convertê-las em valor reconhecido pelo mercado.
A aviação agrícola também entra nessa equação. Câmbio, combustível, peças, seguros e financiamento afetam seus custos, enquanto janelas agronômicas menores tornam a rapidez operacional. Tecnologia de precisão, segurança, qualificação e rastreabilidade precisam avançar juntas. Não basta ser eficiente e sustentável; é necessário demonstrar.
A nova planilha da safra
Planejar a safra agora exige conectar o que acontece dentro e fora da propriedade. Sementes, fertilizantes e defensivos continuam na planilha, mas ao lado deles precisam estar câmbio, juros, petróleo, fretes, crédito, seguro, hedge, armazenagem, tarifas, conflitos, barreiras comerciais, rastreabilidade e destino da produção.
Isso não significa tentar prever cada guerra, eleição, tarifa ou movimento do mercado. Significa identificar vulnerabilidades antes que se transformem em prejuízo. O produtor não controla o Estreito de Ormuz, as decisões da China, as tarifas americanas, a política europeia ou o preço do petróleo. Mas pode decidir quanto desses riscos ficará descoberto dentro de sua operação.
O Brasil também precisa fazer sua parte. Política externa pragmática, diversificação de mercados, redução da dependência de insumos estratégicos, infraestrutura logística, segurança jurídica, crédito e seguro são componentes da competitividade do agro. Geopolítica não se administra apenas na fazenda; exige estratégia nacional.
A produtividade dentro da porteira continuará fundamental, mas já não garante, sozinha, rentabilidade. Uma parcela crescente do resultado é determinada por variáveis que atravessam fronteiras.
O planejamento da safra mudou. A pergunta já não é apenas quantas sacas podemos produzir por hectare, mas quantas permanecerão como margem depois que todos os riscos forem considerados. A geopolítica deixou de ser assunto para acompanhar depois que a lavoura está plantada. Entrou na compra dos insumos, no crédito, no hedge, na logística, na comercialização e na proteção da margem. Entrou, definitivamente, no planejamento da safra.
Isan Rezende














