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Capa da 31ª Edição

A carne sob pressão

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O relógio da pecuária brasileira está correndo rápido. Com o prazo final de 3 de setembro de 2026 se aproximando em menos de 60 dias, a pecuária nacional vive uma contagem regressiva crítica. As restrições da União Europeia a produtos de origem animal com antimicrobianos proibidos pelo bloco deixaram de ser uma ‘preocupação de longo prazo’ para se tornarem um divisor de águas imediato. Não estamos falando apenas de adequação regulatória, mas da sobrevivência da competitividade brasileira em um mercado que movimenta R$ 10 bilhões anuais.

Embora a China permaneça como principal destino da carne bovina brasileira, respondendo por cerca de 47% das receitas do setor, a União Europeia ocupa um papel distinto na arquitetura do comércio global de proteínas, além de representar um mercado estratégico, que movimenta aproximadamente R$ 10 bilhões por ano. Mais do que volume, o bloco concentra demanda por produtos de maior valor agregado e funciona, na prática, como um formador indireto de padrões. O risco percebido pela cadeia produtiva brasileira não se limita à perda de participação naquele mercado, mas à possibilidade de que suas exigências se tornem referência para outros grandes importadores.

A decisão de Bruxelas se insere no contexto das políticas de combate à resistência antimicrobiana, tratada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma das principais ameaças à saúde pública global. O fenômeno ocorre quando microrganismos desenvolvem mecanismos de defesa capazes de reduzir ou neutralizar a eficácia de medicamentos, comprometendo tratamentos antes considerados simples e previsíveis.

Estudos publicados na revista científica The Lancet estimam que a resistência bacteriana esteja associada a cerca de 1,27 milhão de mortes anuais diretamente atribuíveis e a quase cinco milhões de óbitos relacionados. Dentro da abordagem One Health, adotada por organismos como a Organização Mundial da Saúde (OMS), Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e a Organização Mundial de Saúde Animal (WOAH), a saúde humana, animal e ambiental é compreendida como um sistema interdependente, nos quais práticas produtivas têm impacto direto sobre riscos sanitários globais.

Os antimicrobianos englobam diferentes classes de medicamentos, incluindo antibióticos, antivirais, antifúngicos e antiparasitários, mas é sobre os antibióticos que recai o centro do debate regulatório, dada sua ampla utilização na produção animal. O Brasil figura entre os maiores consumidores globais dessas substâncias, em linha com o tamanho de seus rebanhos e sua posição entre os principais exportadores de proteína animal.

Mais relevante do que o volume utilizado, no entanto, é a capacidade de demonstrar como, quando e sob quais condições esses insumos são aplicados. O eixo da discussão regulatória desloca-se, assim, do uso em si para a governança do uso — isto é, sistemas capazes de garantir rastreabilidade individual, monitoramento contínuo e padronização verificável dos processos produtivos.

O Regulamento 2023/905 da União Europeia formaliza esse movimento ao restringir a importação de produtos de origem animal produzidos com substâncias classificadas pelo bloco como reservadas à medicina humana. A medida integra um pacote mais amplo associado ao Pacto Verde Europeu e à estratégia Farm to Fork, que combina objetivos sanitários, ambientais e de reorganização dos sistemas alimentares.

Embora o discurso oficial enfatize a saúde pública, o efeito prático do regulamento é a consolidação de uma nova camada de barreiras não tarifárias baseada em critérios sanitários e de conformidade tecnológica. Nesse contexto, a resistência antimicrobiana funciona como eixo técnico de uma transformação mais ampla na governança do comércio agrícola internacional.

A preocupação europeia com o tema não é recente. Desde a década de 1990, o bloco vem restringindo o uso de antibióticos como promotores de crescimento, prática proibida definitivamente em 2006. A partir daí, a política comunitária evoluiu para um modelo de redução progressiva da dependência de antimicrobianos, sustentado por investimentos em biosseguridade, vacinação, genética, nutrição de precisão e sistemas avançados de rastreabilidade.

Dados da Agência Europeia de Medicamentos indicam que as vendas de antibióticos veterinários na União Europeia caíram mais de 50% entre 2011 e 2022. Ainda assim, o uso terapêutico permanece autorizado sob estrito controle veterinário, o que reforça a distinção entre eliminação de uso e reconfiguração de uso — ponto frequentemente subestimado no debate internacional.

No Brasil, a questão da rastreabilidade representa um dos principais gargalos estruturais. Apesar de avanços relevantes nas últimas décadas, grande parte do rebanho ainda é gerida sob sistemas baseados em lotes, sem acompanhamento individualizado contínuo desde o nascimento até o abate. O Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (Sisbov), criado em 2002, permanece restrito a cadeias orientadas à exportação para mercados específicos.

Essa assimetria evidencia a existência de dois modelos produtivos coexistindo no país. De um lado, operações altamente tecnificadas, integradas a protocolos privados de certificação e controle sanitário. De outro, uma ampla base produtiva voltada ao mercado doméstico, com menor grau de digitalização e menor capacidade de investimento em sistemas de monitoramento contínuo.

O desafio, portanto, não é apenas tecnológico, mas estrutural. A adoção de padrões compatíveis com as exigências europeias implicaria custos significativos de adaptação em um sistema que opera em escala continental, com cerca de 240 milhões de bovinos distribuídos em realidades produtivas heterogêneas.

Nos últimos anos, o Brasil avançou na retirada de determinadas moléculas utilizadas como promotores de crescimento, em linha com recomendações internacionais. Substâncias como avilamicina, tilosina, lincomicina e tiamulina vêm sendo progressivamente restringidas. Ainda assim, o debate central no mercado europeu não está concentrado na quantidade total de antimicrobianos utilizados, mas na previsibilidade e na auditabilidade de seu uso.

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Projeções da FAO indicam que o consumo global de antimicrobianos na produção animal pode crescer até 8% até 2030, impulsionado pela expansão da demanda por proteínas em economias emergentes. Esse movimento tende a intensificar a pressão por sistemas regulatórios mais integrados e comparáveis entre países exportadores.

No nível da produção, a discussão assume contornos econômicos diretos. Em sistemas intensivos, os antibióticos permanecem como instrumento relevante de mitigação de risco sanitário e preservação de produtividade. A retirada abrupta dessas substâncias, sem medidas compensatórias, pode resultar em perdas de eficiência entre 3% e 10%, dependendo do sistema e da espécie.

As alternativas tecnológicas existem, mas não são neutras do ponto de vista econômico. Vacinação ampliada, probióticos, prebióticos, ácidos orgânicos, nutrição de precisão e melhoramento genético compõem um conjunto de ferramentas que reduzem a dependência de antimicrobianos, mas exigem investimentos elevados em infraestrutura, assistência técnica e gestão sanitária.

Em termos estruturais, a transição implica uma reconfiguração do custo de produção. Sistemas mais intensivos de prevenção — incluindo climatização, ventilação, monitoramento digital, biosseguridade e assistência veterinária contínua — tendem a elevar a barreira de entrada e reforçar processos de consolidação no setor.

Experiências internacionais indicam que essa transição, quando bem-sucedida, é necessariamente gradual. Na União Europeia, a redução do uso de antibióticos foi construída ao longo de décadas, combinando restrições regulatórias com forte suporte público em pesquisa, inovação e infraestrutura sanitária.

Nos Estados Unidos, embora o arcabouço regulatório seja menos restritivo, a eliminação do uso de antibióticos como promotores de crescimento, consolidada a partir de 2017, também reposicionou práticas produtivas e ampliou a exigência de prescrição veterinária para diversos fármacos.

A Austrália e o Uruguai ilustram outro aspecto do debate: a relação entre escala, governança sanitária e acesso a mercados premium. A Austrália consolidou sistemas avançados de rastreabilidade individual, enquanto o Uruguai, com um rebanho significativamente menor, alcançou cobertura praticamente total de identificação bovina, reforçando sua inserção em mercados de maior exigência.

No Brasil, a coexistência de diferentes níveis tecnológicos dentro da mesma cadeia produtiva torna a transição mais complexa. A heterogeneidade interna reduz a velocidade de adaptação e impõe desafios adicionais de coordenação regulatória e investimento.

Esse cenário ganha dimensão adicional quando inserido no contexto geopolítico do comércio agrícola. As discussões em torno da ratificação do acordo entre Mercosul e União Europeia ocorrem em paralelo a pressões crescentes de agricultores europeus contra a ampliação de importações de países sul-americanos, sob a alegação de assimetria regulatória.

Em Bruxelas, o argumento oficial é de natureza sanitária. Entre produtores europeus, porém, a percepção recorrente é de que padrões ambientais e de bem-estar animal mais rigorosos funcionam também como mecanismo de proteção competitiva em setores sensíveis da agricultura continental.

Independentemente da interpretação, o efeito sistêmico é o fortalecimento de um modelo em que acesso a mercados passa a depender menos de custo e produtividade isoladamente, e mais da capacidade de demonstrar conformidade com padrões sanitários e ambientais complexos.

A China, principal destino da carne bovina brasileira, já sinaliza maior rigor em aspectos sanitários e de controle de embarques, ainda que não exista, até o momento, convergência explícita com o modelo europeu de restrição a antimicrobianos. Ainda assim, a tendência de harmonização gradual de padrões internacionais permanece como vetor estrutural de longo prazo.

O mercado global de saúde animal, estimado em mais de R$ 280 bilhões anuais, reflete essa transformação. No Brasil, o setor ultrapassa R$ 10 bilhões e vem direcionando investimentos para áreas como imunização avançada, microbioma intestinal, inteligência artificial aplicada à produção e sistemas de monitoramento em tempo real.

O ponto central, no entanto, transcende a dimensão tecnológica. O que está em disputa é o próprio modelo de competitividade da pecuária brasileira, historicamente baseado em escala, disponibilidade de recursos naturais e eficiência de custos.

Esses fatores continuam relevantes, mas já não são suficientes por si só para garantir acesso aos mercados mais exigentes. A nova fronteira competitiva envolve confiança verificável — um ativo intangível que depende de sistemas de rastreabilidade, transparência e padronização internacional.

Em última instância, o debate sobre antimicrobianos não se limita à regulação sanitária. Ele redefine os critérios de inserção no comércio global de alimentos e antecipa uma mudança estrutural na forma como a competitividade agropecuária será medida nas próximas décadas.

Prazo exíguo

O prazo final para adequação do Brasil às novas exigências sanitárias da União Europeia termina no dia 3 de setembro de 2026. A partir dessa data, o bloco ameaça aplicar integralmente os novos critérios de conformidade relacionados ao uso de antimicrobianos e padrões de equivalência regulatória na produção animal.

Na prática, isso significa que exportações brasileiras de carne bovina, carne de frango, suínos, pescado, ovos, leite e mel poderão ter suspensão de habilitação caso não atendam aos requisitos exigidos pelo sistema europeu de certificação sanitária.

As regras exigem comprovação de controle rigoroso no uso de antimicrobianos, especialmente substâncias classificadas como restritas ou de uso exclusivo humano, além de sistemas auditáveis de rastreabilidade ao longo da cadeia produtiva.

O governo brasileiro, por meio do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), mantém negociações técnicas com a União Europeia para estabelecer protocolos de transição e evitar interrupções comerciais, além de ajustar sistemas internos de controle e certificação sanitária.

O próprio governo avalia que o processo de adaptação é desigual entre cadeias produtivas: enquanto setores como aves avançam mais rapidamente, a pecuária bovina exige ciclos mais longos de ajuste, estimados em até 18 a 20 meses.

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O desafio brasileiro

Diante do avanço das exigências internacionais sobre o uso de antimicrobianos, o produtor brasileiro não está diante de uma proibição imediata, mas de uma transição estrutural gradual. O movimento global aponta para sistemas de produção mais controlados, rastreáveis e baseados em prevenção sanitária, o que redefine padrões de acesso a mercados e, sobretudo, de competitividade.

Na prática, essa transição começa dentro da porteira com a revisão do uso preventivo e rotineiro de antibióticos. A tendência internacional é substituir esse modelo por estratégias baseadas em prevenção sanitária estruturada, com maior peso para vacinação, manejo nutricional e redução de fatores de estresse. Em cadeias voltadas à exportação, esse processo já está mais avançado e tende a se acelerar nos próximos anos.

O segundo eixo é a biosseguridade, que passa de prática recomendada para requisito econômico. Isso inclui controle rigoroso de acesso às propriedades, manejo de água e alimentação, melhoria de ambiência, ventilação, densidade animal e redução de falhas de manejo. Na prática, são ajustes operacionais que reduzem a necessidade de intervenção medicamentosa e aumentam a previsibilidade sanitária dos lotes.

O terceiro componente é a rastreabilidade. A identificação individual e o registro contínuo de eventos sanitários deixam de ser um diferencial de nicho exportador e passam a integrar o padrão exigido por mercados de maior valor agregado. Nesse ponto, a assimetria interna da pecuária brasileira fica evidente: sistemas integrados a frigoríficos e programas privados já operam com maior nível de controle, enquanto produtores independentes ainda enfrentam limitações de escala, custo e estrutura.

Em paralelo, cresce a adoção de tecnologias complementares ao uso de antimicrobianos, como vacinas de maior precisão, probióticos, prebióticos, aditivos nutricionais funcionais e ferramentas digitais de monitoramento sanitário. Essas soluções não eliminam o uso de antibióticos, mas reduzem sua frequência e tornam o sistema mais previsível e tecnicamente controlado. O ponto crítico é que sua adoção exige capital, gestão mais profissionalizada e acesso contínuo a assistência técnica.

O principal entrave não é tecnológico, mas econômico e estrutural. A transição tende a ampliar a distância entre sistemas altamente tecnificados e uma base produtiva mais heterogênea, especialmente entre pequenos e médios produtores. Isso cria um efeito de dualização da pecuária, com diferentes níveis de acesso a mercados e diferentes velocidades de adaptação.

Diante desse cenário, os caminhos mais viáveis para o produtor brasileiro se organizam em três frentes. A primeira é a inserção em cadeias coordenadas, como cooperativas, integrações e programas de frigoríficos exportadores, que oferecem escala, padronização e acesso a protocolos sanitários mais avançados. A segunda é a adoção gradual de protocolos de biosseguridade e rastreabilidade, ainda que em níveis progressivos, compatíveis com a capacidade de investimento de cada sistema. A terceira é o acesso a políticas de apoio técnico e financeiro, incluindo crédito para modernização produtiva, assistência veterinária estruturada e programas de capacitação em gestão sanitária.

A experiência internacional indica que esse tipo de transformação não ocorre por ruptura, mas por camadas sucessivas de adaptação. No caso europeu, a redução do uso de antimicrobianos foi resultado de décadas de investimento em prevenção, regulação e tecnologia, combinados com forte suporte institucional. Mesmo após restrições mais duras, o uso terapêutico permaneceu parte do sistema produtivo, evidenciando que a mudança é de intensidade e governança, não de eliminação.

Para o produtor brasileiro, isso significa que a adaptação não será uma decisão única, mas um processo contínuo de reposicionamento. O fator decisivo deixará de ser apenas custo de produção e passará a incluir capacidade de comprovação sanitária, organização produtiva e inserção em cadeias capazes de atender a padrões internacionais cada vez mais rigorosos.

A experiência europeia

A União Europeia cobra de exportadores de carne padrões rigorosos sobre o uso de antibióticos na pecuária. Mas essas exigências não nasceram como barreiras externas: elas são o resultado de um processo interno de décadas, em que o próprio bloco reduziu gradualmente o uso desses medicamentos e reorganizou seu sistema produtivo.

O marco de 2006, que proibiu antibióticos como promotores de crescimento, foi apenas um ponto de virada dentro de uma trajetória iniciada nos anos 1990. A partir daí, a política europeia passou a forçar uma mudança estrutural nas fazendas, com foco em prevenção, biosseguridade e monitoramento sanitário.

Os dados mostram o resultado desse processo. Entre 2011 e 2022, as vendas de antibióticos veterinários caíram mais de 50% na União Europeia, segundo a Agência Europeia de Medicamentos. Mesmo assim, o uso terapêutico continua permitido — sob prescrição e controle estrito — e ainda representa milhares de toneladas de princípios ativos por ano.

Ou seja, a Europa não eliminou os antibióticos na produção animal. Ela reduziu seu uso e passou a controlar de forma mais rígida quando e como eles são aplicados.

Esse modelo só foi possível porque veio acompanhado de uma estrutura institucional robusta. Vigilância sanitária, rastreabilidade, inovação tecnológica e políticas agrícolas de longo prazo formam a base dessa transição.

Também houve condições estruturais favoráveis. Propriedades menores, maior nível de tecnificação e forte suporte público tornaram a adaptação mais viável do que em grandes países exportadores de escala continental.

Ainda assim, o modelo europeu não é neutro do ponto de vista econômico. O aumento de exigências elevou custos de produção e se tornou um ponto recorrente de tensão nas negociações comerciais com países exportadores de alimentos.

É nesse ponto que está o centro da questão: a Europa não apenas regula o comércio global de carne — ela exporta um padrão sanitário que ela própria levou décadas para construir internamente.

E é justamente essa assimetria entre trajetória histórica e exigência atual que alimenta parte das tensões no comércio internacional de proteínas.

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