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COMPENSAÇÕES DE CARBONO E O DILEMA DO GREENWASHING (LAVAGEM VERDE)

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À medida que 2025 chega ao fim, a revista Scientific Reports publicou um estudo histórico que abala os fundamentos da política climática global e desafia nossa compreensão da fotossíntese. Conduzido por pesquisadores do National Centre for Earth Observation do Reino Unido, nas Universidades de Leicester, Sheffield e Edimburgo, o estudo revela que as florestas africanas — há muito consideradas sumidouros vitais de carbono — tornaram-se fontes líquidas de emissões. Entre 2010 e 2017, esses ecossistemas liberaram mais dióxido de carbono do que absorveram, alcançando quase 200 milhões de toneladas anuais. Em artigo anterior, abordei esse perigoso ponto de inflexão na crise climática global, com profundas implicações para a biodiversidade, a estabilidade atmosférica e as metas internacionais de clima.

Essa mudança alarmante evidencia a fragilidade das defesas naturais do planeta contra as mudanças climáticas e levanta questões urgentes sobre a credibilidade dos mecanismos de compensação de carbono, especialmente aqueles promovidos por empresas de petróleo e energia e até mesmo por algumas instituições ambientais. Se as florestas já não absorvem carbono como se supunha, podem as corporações justificar o equilíbrio de suas emissões por meio da compra ou proteção dessas áreas — ou trata-se apenas de outra forma de greenwashing?

A ciência por trás da mudança

As florestas atuam como sumidouros de carbono ao absorver dióxido de carbono pela fotossíntese e armazená-lo na biomassa e no solo. Historicamente, as florestas tropicais africanas — em especial a Bacia do Congo — desempenharam papel crucial na estabilização do clima global. O novo estudo, entretanto, demonstra que esse equilíbrio foi rompido.

Principais fatores incluem:

  • Desmatamento: exploração madeireira e conversão de terras para agricultura reduzem a cobertura florestal.
  • Incêndios: naturais ou provocados, liberam carbono armazenado em taxas alarmantes.
  • Mineração e agricultura itinerante: práticas que destroem ecossistemas e dificultam a regeneração.
  • Degradação do solo: a perda de vegetação acelera a decomposição da matéria orgânica e a liberação de carbono.
  • Lacunas de conhecimento: pesquisas limitadas sobre como elementos raros afetam a eficiência fotossintética.

O resultado é uma perda anual de quase 106 bilhões de quilos de biomassa, transformando as florestas em fontes preocupantes de emissões, em vez de barreiras protetoras.

Contexto das emissões globais

Para fins comparativos, as emissões de combustíveis fósseis atingiram 37,4 bilhões de toneladas de dióxido de carbono em 2024. As emissões das florestas africanas representam cerca de 0,5% desse total. Embora aparentemente pequeno, o impacto simbólico é imenso: as florestas deveriam ser parte da solução, mas agora são parte do problema.

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A lógica das compensações

Empresas globais de petróleo frequentemente justificam a continuidade da dependência de combustíveis fósseis adquirindo créditos de compensação florestal no âmbito da estrutura de “emissões líquidas zero”. Essa lógica repousa sobre três pilares:

  • Absorção de carbono: as florestas equilibram emissões ao absorver CO₂.
  • Equilíbrio global: como a mudança climática é um problema mundial, a absorção pode ocorrer em qualquer lugar.
  • Proteção financiada: os investimentos são apresentados como apoio à biodiversidade e ao desenvolvimento local.

As descobertas mais recentes, contudo, expõem a fragilidade dessa lógica e a debilidade da governança.

Quando a lógica falha

O estudo evidencia várias falhas:

  • As florestas tornaram-se fontes de emissões, minando sua credibilidade como compensações.
  • O carbono armazenado é vulnerável à liberação por incêndios ou desmatamento.
  • Surgem preocupações de justiça, pois a mercantilização das florestas ameaça a soberania e marginaliza comunidades locais.
  • As compensações correm o risco de se tornar instrumentos de greenwashing, permitindo que empresas projetem uma imagem ecológica sem cortes reais de emissões.
  • As nações industrializadas continuam a negligenciar compromissos financeiros prometidos a países mais pobres no âmbito do Acordo de Paris.

Greenwashing e responsabilidade corporativa

Greenwashing é a projeção de uma imagem ambientalmente positiva sem mudança substantiva. As compensações florestais exemplificam isso quando utilizadas como substitutos de reduções genuínas. Ao adquirir créditos de florestas africanas, empresas alegam progresso rumo ao “net zero” enquanto expandem a produção de combustíveis fósseis. Isso cria a ilusão de ação climática sem reduzir as concentrações atmosféricas de CO₂.

Contexto da COP30

A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Clima (COP30), realizada no Brasil em 2025, enfatizou a proteção das florestas como prioridade global. Contudo, também destacou os mercados de carbono, com nações e corporações comprometendo bilhões para comprar créditos florestais. Eis a contradição: a ciência demonstra que as florestas africanas são emissoras líquidas, mas a política continua a promovê-las como compensações. Essa desconexão entre ciência e política — entre conhecimento e economia — ameaça transformar promessas climáticas em meros exercícios de relações-públicas.

A dimensão ética

Além da ciência e da política, as compensações de carbono levantam questões éticas profundas. As florestas africanas abrigam milhões de pessoas que delas dependem para subsistência e identidade cultural. Muitos acordos de compensação envolvem empresas estrangeiras adquirindo direitos sobre vastas extensões de terra — às vezes até um quinto do território nacional. Críticos denominam isso uma nova forma de colonialismo ambiental: nações e corporações ricas mercantilizam ecossistemas africanos para equilibrar sua poluição, enquanto comunidades locais arcam com as consequências. O estudo mais recente reforça essa crítica, mostrando que essas florestas já não desempenham sequer o papel climático que lhes era atribuído.

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Rumo a uma ação climática genuína

Se as compensações prometidas são pouco confiáveis, qual é a alternativa? A solução está em abandonar artifícios contábeis e adotar reduções reais. Passos essenciais incluem:

  • Reduzir o uso de combustíveis fósseis, começando pelo metano, conforme destacado na COP28.
  • Investir em energias renováveis: solar, eólica e hidrogênio devem ocupar posição central.
  • Proteger as florestas por seu valor intrínseco: salvaguardar biodiversidade e comunidades, não balanços corporativos.
  • Endurecer regras de compensação: garantindo que sejam adicionais, verificáveis e permanentes.

Conclusão
A revelação de que as florestas africanas são fontes líquidas de carbono é um alerta global. Expõe a fragilidade de confiar em ecossistemas como compensações corporativas e evidencia os perigos do greenwashing — com seus custos ambientais e humanos. Empresas de petróleo e suas afiliadas não podem justificar o equilíbrio de emissões por meio de florestas em deterioração que liberam carbono. Proteger as florestas africanas continua essencial — para a biodiversidade, as comunidades e a estabilidade climática. Mas essa proteção não deve se tornar licença para expandir combustíveis fósseis. A verdadeira responsabilidade climática exige cortes de emissões na origem e proteção florestal por seu valor intrínseco.

À medida que a COP30 se encerra, o desafio é claro: substituir a ilusão de equilíbrio pela realidade da transformação, indo além da narrativa de “emissões líquidas zero” popularizada na COP26. Só assim as florestas — e a humanidade — poderão ser aliadas genuínas no enfrentamento das mudanças climáticas. Só assim os acordos ambientais entregarão um equilíbrio moral e ecológico capaz de enfrentar o maior desafio do planeta.

Dr Abdallah Belhaif Al Nuaimi – Presidente do Conselho Consultivo de Sharjah e ex-Ministro de Mudança Climática e Meio Ambiente dos Emirados Árabes Unidos.

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