A Pensar Agro está muito honrada em anunciar mais uma edição de sua coluna Agro Arábia, com uma entrevista exclusiva com o Dr. Rashed Mohamed Karkain, renomado empreendedor, inovador e pesquisador dos Emirados em sustentabilidade e química verde. A trajetória notável do Dr. Karkain — da engenharia química à liderança do Instituto de Pesquisa e Treinamento para o Desenvolvimento Sustentável — prepara o cenário para uma discussão envolvente sobre inovação, sustentabilidade e colaboração global.
Nesta matéria, o Dr. Karkain compartilha sua expertise em desenvolvimento sustentável, liderança ambiental e práticas de economia circular, alicerçada em seus 28 anos de experiência e 15 propriedades intelectuais registradas. Ele destaca as iniciativas pioneiras do Instituto, como o Programa de Liderança em Desenvolvimento Sustentável, e seu papel no avanço de tecnologias verdes, gestão de carbono e sustentabilidade do agronegócio nos Emirados Árabes Unidos e em outros lugares.
Os leitores terão acesso a comentários exclusivos sobre como o Dr. Karkain vê futuras colaborações, incluindo potenciais parcerias com o Brasil em áreas como restauração de solos, agroquímica verde e inovação em tecnologia agrícola. Ele também discute o impacto transformador da comunicação estratégica na conexão entre ciência, política e indústria para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (ODS).
Acompanhem agora a entrevista com o Dr. Karkain, que explorará oportunidades de cooperação entre Emirados Árabes Unidos e Brasil em sustentabilidade agrícola, desde P&D conjunta até soluções de reúso de água e programas de capacitação. Esta nova edição da Agro Arábia abre caminho para o intercâmbio brasileiro em agronegócio global e sustentabilidade.
Para começar, o senhor poderia se apresentar brevemente aos nossos leitores e nos contar sobre sua trajetória profissional?
Meu nome é Dr. Rashed Mohamed Karkain, autor do livro Líderes do Desenvolvimento Sustentável. Atualmente, ocupo o cargo de CEO e Diretor Executivo do Instituto de Pesquisa e Treinamento para o Desenvolvimento Sustentável. Também atuo como Vice-Presidente da Sociedade de Acadêmicos nos Emirados Árabes Unidos.
Sou bacharel em Engenharia Química pela Universidade do Sul da Flórida, EUA, e doutor em Meio Ambiente e Saúde. Com mais de 28 anos de experiência reconhecida em diversas áreas — incluindo desenvolvimento sustentável, liderança ambiental, gestão de projetos, economia verde, captura de carbono, hidrogênio verde e pesquisa e desenvolvimento —, sou detentor de 15 propriedades intelectuais registradas no Ministério da Economia dos Emirados Árabes Unidos.
Gostaríamos também que o senhor nos apresentasse o Instituto de Desenvolvimento Sustentável: quando e como surgiu, quais são seus principais objetivos e áreas de atuação?
O Instituto de Pesquisa e Treinamento em Desenvolvimento Sustentável (www.institute.ae) foi criado para atender à crescente demanda por capacitação, inovação e soluções práticas nas áreas de sustentabilidade e proteção ambiental, tanto nos Emirados Árabes Unidos quanto em escala internacional. O Instituto foi fundado com a missão de facilitar a realização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas por meio de pesquisa abrangente, treinamento especializado e consultoria estratégica.
No centro dos nossos esforços está o Programa de Liderança em Desenvolvimento Sustentável, uma das nossas principais iniciativas que visa equipar profissionais e jovens com o conhecimento, as habilidades e a mentalidade essenciais para liderar a transformação sustentável em suas respectivas áreas. O programa visa preparar líderes atuais e futuros para enfrentar complexos desafios ambientais, econômicos e sociais com estratégias práticas, inovadoras e inclusivas.
Além deste programa, os objetivos do Instituto incluem:
- Construir capacidades institucionais e profissionais em domínios de sustentabilidade.
- Promover pesquisa e inovação em economia verde, gestão de carbono e tecnologias limpas.
- Oferecer programas de treinamento especializados e certificações alinhadas às melhores práticas globais.
- Fornecer serviços de consultoria em áreas como relatórios ESG, gestão de resíduos, ação climática e governança ambiental.
Nossas principais áreas de atuação incluem:
- Liderança em desenvolvimento sustentável
- Política e governança ambiental
- Economia circular e gestão de resíduos
- Mudanças climáticas e soluções de energia verde
- Integração de ESG e sustentabilidade
Através de colaborações com entidades governamentais, organizações do setor privado e instituições acadêmicas, o Instituto assume um papel fundamental no desenvolvimento de um futuro mais sustentável, cultivando líderes qualificados e fornecendo soluções eficazes.
Sua formação e experiência demonstram uma interface clara entre química, engenharia e sustentabilidade — áreas atualmente articuladas sob o conceito de Química Verde. Como esses temas e práticas circulam atualmente nos Emirados Árabes Unidos e na região do Golfo? Qual o impacto nas instituições, governos e sociedade civil?
Minha formação acadêmica e profissional em engenharia química teve início com meu primeiro mandato na Refinaria de Gás Natural localizada na Ilha Das, em Abu Dhabi, onde adquiri experiência prática em operações industriais de grande porte, produção de energia e controle de emissões. Essa base prática influenciou significativamente minha compreensão das implicações diretas que as decisões de engenharia têm nos resultados ambientais e de saúde pública.
Motivado pelo desejo de abordar essas implicações de forma mais abrangente, iniciei um doutorado em Estudos Ambientais e de Saúde. Essa pesquisa acadêmica me permitiu integrar minha expertise técnica em engenharia a uma estrutura mais ampla de sustentabilidade e pensamento sistêmico. Essa combinação me capacitou em abordar os desafios da sustentabilidade a partir de uma perspectiva voltada para soluções, particularmente nas áreas de processos industriais, sistemas energéticos e conservação ambiental.
Nos Emirados Árabes Unidos (EAU) e na região do Golfo, a importância da engenharia química está se tornando cada vez mais central para as iniciativas nacionais em sustentabilidade, energia limpa e eficiência de recursos. Há uma transição distinta na maneira como as práticas de engenharia estão sendo redirecionadas para resultados sustentáveis, seja por meio da otimização de sistemas de tratamento de água, da redução de emissões industriais, do aprimoramento da gestão de resíduos ou do avanço de alternativas de combustíveis limpos, incluindo o hidrogênio verde.
Governos em toda a região estão promulgando políticas voltadas para a sustentabilidade e implementando regulamentações orientadas a tecnologia, o que exige uma integração mais profunda das disciplinas ambientais e de engenharia. Notavelmente, visões e estratégias nacionais como o EAU Net Zero 2050, a Estratégia Industrial de Dubai e a Saudi Vision 2030 enfatizam a inovação em materiais, métodos de produção mais limpos e tecnologias de captura de carbono — domínios intrinsecamente conectados à engenharia química.
Além disso, instituições e indústrias estão passando por transformações. Universidades estão expandindo seus programas de engenharia para abranger o design de processos sustentáveis, enquanto centros de pesquisa e empresas estão alocando recursos para tecnologias de baixo impacto e estruturas de economia circular. Por meio do Instituto de Pesquisa e Treinamento em Desenvolvimento Sustentável, trabalho em colaboração com ambos os setores para fornecer capacitação, consultoria e iniciativas de desenvolvimento de liderança — garantindo que a sustentabilidade esteja enraizada não apenas nas práticas operacionais, mas também na mentalidade organizacional.
A sociedade civil reconhece cada vez mais a importância das soluções de engenharia para enfrentar os desafios ambientais. Nossos esforços colaborativos com jovens e profissionais — especialmente por meio de iniciativas como o Programa de Liderança em Desenvolvimento Sustentável — estão cultivando uma geração de líderes capazes de conectar inovação técnica com tomada de decisões sustentáveis.
A Química Verde conecta-se, naturalmente, com o Agronegócio, por temas como bioquímica do solo, fertilizantes sustentáveis e gestão de resíduos. Como essa interface entre Química, Tecnologias Verdes e o setor agrícola se manifestou no cenário dos Emirados Árabes Unidos?
Nos Emirados Árabes Unidos, há uma tendência crescente de integração de tecnologias verdes no setor agrícola, particularmente pela implementação de práticas de engenharia química ambientalmente responsáveis. Embora o termo “Química Verde” nem sempre seja utilizado explicitamente, seus princípios fundamentais manifestam-se no desenvolvimento de fertilizantes sustentáveis, melhoradores biológicos de solo e tecnologias para a conversão de resíduos orgânicos.
Meus esforços profissionais convergiram para essa mudança de paradigma com iniciativas que enfatizam modelos de conversão de resíduos em recursos, o reúso de águas residuais tratadas na agricultura e a defesa de práticas de economia circular no setor do agronegócio. Essas iniciativas se alinham com as estratégias nacionais que visam aprimorar a segurança alimentar, conservar os recursos hídricos e promover práticas agrícolas resilientes ao clima. Elas representam um compromisso crescente com a integração da sustentabilidade em toda a cadeia de valor agrícola nos Emirados Árabes Unidos.
O Brasil possui um agronegócio fortemente mecanizado, com produção em larga escala e diversos desafios ambientais. Como o senhor vê o agronegócio brasileiro do ponto de vista da sustentabilidade, com base na sua experiência internacional?
Do ponto de vista da sustentabilidade, o agronegócio brasileiro tem destaque por sua escala, mecanização e inovação. Desejo adquirir conhecimento de primeira mão, idealmente visitando e observando in loco algumas de suas práticas exemplares. As iniciativas brasileiras em plantio direto, fertilizantes de origem biológica e sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta são reconhecidas internacionalmente e trazem insights valiosos para regiões semelhantes à nossa, que enfrentam restrições de recursos e desafios climáticos.
Na sua opinião, quais são os maiores desafios para a transição de práticas tradicionais para práticas sustentáveis no setor agrícola em regiões áridas, como os Emirados Árabes Unidos?
Em regiões áridas como os Emirados Árabes Unidos, a transição para práticas agrícolas sustentáveis apresenta oportunidades únicas para impulsionar a inovação em tecnologias de eficiência hídrica, agricultura climaticamente inteligente e uso circular de recursos. Em vez de encarar isso como um desafio, vejo essa mudança como um catalisador para a adoção de sistemas avançados de ambiente controlado, reúso de água tratada e soluções integradas de tecnologia agrícola adaptadas a climas áridos.

O senhor trabalha com comunicação científica, políticas públicas e orientação de projetos técnicos. Como o senhor vê o papel da comunicação estratégica na difusão da Química Verde e de tecnologias sustentáveis em setores industriais relevantes, como a agricultura?
A comunicação estratégica desempenha um papel-chave na promoção de tecnologias sustentáveis, garantindo que a pesquisa científica chegue às pessoas certas — como proprietários de tecnologia, desenvolvedores de projetos, investidores e formuladores de políticas. Ela ajuda esses grupos a trabalharem juntos, alinhando seus esforços com os principais objetivos do projeto e abrindo caminho para uma execução bem-sucedida e sustentabilidade duradoura. Ao conectar ideias científicas visionárias com políticas públicas e implementação técnica, a comunicação estratégica capacita os projetos a fazerem uma diferença real na realização dos objetivos estratégicos da cidade e do país, apoiando, em última instância, a concretização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (ODS).
Muitos dos seus projetos envolvem reaproveitamento de resíduos e tecnologias circulares. Quais inovações o senhor destacaria como promissoras para uso agrícola, especialmente em solos degradados ou de baixa fertilidade?
Uma das inovações mais promissoras para o aprimoramento da agricultura em solos degradados ou de baixa fertilidade é a abordagem da economia circular para a gestão de águas residuais. Esse método implica manter os resíduos dentro do nosso ciclo econômico, protegendo o meio ambiente. Um exemplo perfeito disso é o tratamento eficaz de águas residuais de esgoto, que permite a reutilização segura de efluentes tratados em paisagismo e agricultura não alimentar! Além disso, o lodo das estações de tratamento pode ser transformado em fertilizantes orgânicos que enriquecem o solo, desde que haja um compromisso com a produção adequada e o controle de qualidade. Essa abordagem criteriosa não apenas reduz a poluição, mas também restaura a saúde do solo e protege nossas águas subterrâneas, ecossistemas e saúde pública.

Como universidades e centros de pesquisa da região têm colaborado com o setor privado para promover soluções sustentáveis no agronegócio? Há exemplos de parcerias bem-sucedidas?
Um forte exemplo de colaboração entre a academia e o setor privado pode ser visto na parceria entre o Instituto de Pesquisa e Treinamento em Desenvolvimento Sustentável e a Sociedade de Acadêmicos dos Emirados Árabes Unidos com universidades e indústrias para promover a sustentabilidade. Essas organizações fornecem plataformas onde a pesquisa científica se alinha aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (ODS), garantindo benefícios tangíveis para a sociedade. Suas iniciativas enfatizam que o desenvolvimento sustentável, em última instância, serve à humanidade — tendo a agricultura, nossa principal fonte de alimento, como seu cerne. Pela pesquisa colaborativa, troca de conhecimento e engajamento multissetorial, eles promovem soluções práticas que abordam tanto as preocupações ambientais quanto os desafios da segurança alimentar.
Para encerrar, que oportunidades o senhor vê para a cooperação futura entre os Emirados Árabes Unidos e o Brasil na área de sustentabilidade agrícola e agroquímica verde?
Vejo algumas linhas de ação:
- Pesquisa e desenvolvimento conjunto em restauração do solo: esse esforço envolve pesquisa colaborativa que visa reabilitar solos degradados com biossoluções.
- Intercâmbio de Tecnologias Verdes: essa iniciativa compreende compartilhamento de inovações em biofertilizantes, biopesticidas e sistemas agrícolas com eficiência hídrica.
- Programas de incubação de tecnologia agrícola: esses programas visam fundar incubadoras de startups colaborativas para promover inovações sustentáveis em tecnologia agrícola.
- Soluções de reutilização de água: essa parceria envolve trabalhar em conjunto na reutilização de águas residuais tratadas para fins agrícolas, capitalizando o modelo de economia circular dos Emirados Árabes Unidos.
- Capacitação e Treinamento: essa iniciativa busca organizar programas bilaterais de treinamento e facilitar a transferência de conhecimento nas áreas de agricultura sustentável e química verde.

Entrevista elaborada e conduzida por Maria Cristina Calil e Marco Calil, editora-chefe e editor assistente da Agro Arabia.











