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MOHAMMED ALI AL MULLA: CONSTRUINDO PONTES ENTRE BANCOS E AGRICULTURA PARA O FUTURO DE OMÃ

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Com a coluna Agro Arábia, a Revista Pensar Agro tem a honra de apresentar uma entrevista exclusiva com Mohammed Ali Al Mulla, banqueiro e empresário que opera na interface dos setores bancário e agrícola em Omã. Com uma carreira de 16 anos em gestão de investimentos e como cofundador da Green Oasis Agriculture, ele oferece uma perspectiva única sobre finanças agrícolas e desenvolvimento sustentável em Omã, alinhada com a Visão 2040 do país.

Mohammed Ali Al Mulla vê a colaboração entre Omã e Brasil em financiamento agrícola como um novo modelo de cooperação em potencial, combinando a experiência mundial, tecnologia e capacidade de produção agrícola do Brasil com o capital de investimento de Omã e do Conselho de Cooperação para os Estados Árabes do Golfo (CCG), acesso estratégico ao mercado e compromisso com o desenvolvimento agrícola. Ele prevê a criação de um alinhamento estratégico genuíno que supere uma relação tradicional comprador-vendedor, o que contribuirá significativamente para a segurança alimentar global e para a geração de retornos sustentáveis.

Acompanhem nossa entrevista com Mohammed Ali Al Mulla, que une finanças e agricultura em prol de novos modelos de investimento agrícola e cooperação internacional.

1. O senhor poderia se apresentar e dizer sobre seu duplo papel como banqueiro e empresário do agronegócio?

Eu sou Mohammed Ali Al Mulla, Chefe de Passivos do Banco Dhofar e Cofundador e Presidente do Conselho de Administração da Green Oasis Agriculture. Tendo me formado pela Universidade de Economia e Negócios de Viena, durante minha carreira de 16 anos em gestão de investimentos, tenho criado valor por meio de oportunidades estratégicas de investimento em diversos setores.

Essas funções duplas são complementares – no Banco Dhofar, supervisiono as estratégias de gerenciamento de passivos, fornecendo informações sobre fluxos de capital e desafios financeiros enfrentados por setores intensivos em capital, como a agricultura. Na Green Oasis, integramos tecnologias inovadoras com práticas agrícolas sustentáveis.

Minha experiência bancária traz know-how financeiro, que beneficia nossos empreendimentos agrícolas, ao passo que minha experiência prática no agronegócio informa minhas perspectivas bancárias. Ambas as funções se alinham com a Visão 2040 de Omã, enfatizando a diversificação econômica e a segurança alimentar. As sinergias entre essas funções criam oportunidades únicas para gerar impacto na interseção de finanças e agricultura.

2. Como Chefe de Passivos Corporativos e especialista em private banking, como suas estratégias financeiras se alinham com os setores corporativo e agrícola de Omã?

Minha estratégia financeira se concentra na compreensão das estruturas de capital únicas que diferentes setores exigem. Para o setor agrícola de Omã, reconhecemos que os modelos bancários tradicionais muitas vezes não atendem às suas características únicas – fluxos de caixa sazonais, horizontes de investimento mais longos, dependências climáticas e necessidades de financiamento de equipamentos especializados.

No Banco Dhofar, estamos desenvolvendo produtos financeiros alinhados aos ciclos de produção agrícola, introduzindo estruturas de pagamento flexíveis que acomodam cronogramas de colheita e explorando instrumentos de gerenciamento de risco para riscos relacionados ao clima.

Minhas experiências na Green Oasis foram inestimáveis, pois trouxeram conhecimento em primeira mão dos requisitos de capital para operações agrícolas modernas. Essa visão prática influencia a forma como estruturamos nossos produtos de responsabilidade corporativa e aconselhamos clientes agrícolas.

Também estamos vendo um interesse crescente de clientes de private banking em investimentos em agricultura sustentável, o que se alinha com os objetivos de segurança alimentar de Omã. Minha dupla perspectiva nos permite criar veículos de investimento conectando capital privado com oportunidades de desenvolvimento agrícola, beneficiando tanto os investidores que buscam diversificação quanto o ecossistema agrícola mais amplo.

3. Além do setor bancário, o senhor fundou a Green Oasis Agriculture. Conte-nos mais sobre o Green Oasis.

A Green Oasis Agriculture representa nossa visão de transformar a paisagem agrícola de Omã por meio da inovação e da sustentabilidade. Começamos estabelecendo uma fábrica de fertilizantes líquidos especiais em Sohar, mas nossas ambições vão muito além da produção de fertilizantes.

Operamos em três áreas principais: projetos de cultivo em larga escala que demonstram a viabilidade da agricultura moderna no ambiente de Omã; serviços abrangentes para fazendas existentes para aumentar as capacidades e o rendimento; e contribuições para os setores de paisagismo e horticultura em Omã.

O que realmente nos move é nosso compromisso com os objetivos nacionais de Omã. Estamos alinhados com as metas de segurança agrícola e alimentar de Omã para 2040, com o objetivo de nos tornarmos a principal empresa agrícola sustentável, inovadora e tecnologicamente avançada de Omã.

Reconhecemos que a transformação agrícola não é algo que uma única empresa possa alcançar sozinha, por isso estamos focados em criar sinergia entre todas as partes interessadas agrícolas em Omã. Essa visão holística complementa meu papel bancário, criando um ciclo virtuoso em que a inovação financeira e a inovação agrícola se reforçam mutuamente.

4. O senhor poderia falar sobre o papel da Green Oasis como plataforma de investimento para projetos agrícolas em Omã e no Oriente Médio?

Apesar de termos começado como uma empresa de produção e serviços agrícolas, reconhecemos a necessidade crítica de veículos de investimento especializados no ecossistema agrícola regional. A região do Oriente Médio e Norte da África enfrenta desafios agrícolas únicos, mas apresenta enormes oportunidades de inovação.

A Green Oasis está desenvolvendo uma plataforma de investimento estruturada especificamente para projetos agrícolas e de segurança alimentar em três componentes:

Primeiro, identificamos projetos agrícolas com forte potencial comercial e alinhamento com as prioridades regionais de segurança alimentar.

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Em segundo lugar, estruturamos essas oportunidades em veículos de investimento que atendem aos requisitos de diferentes perfis de investidores – desde investidores institucionais que buscam retornos estáveis até family offices interessados em resultados financeiros e de impacto.

Em terceiro lugar, fornecemos suporte técnico e operacional contínuo aos projetos do portfólio, aproveitando nossa experiência agrícola para mitigar os riscos de execução e maximizar o desempenho operacional.

O valor de nossa plataforma de investimento reside em nosso profundo conhecimento da paisagem agrícola local, combinado com nossas conexões com a inovação agrícola internacional. Estamos criando pontes entre a tecnologia agrícola global e as oportunidades de implementação local, com estruturas de investimento apropriadas que apoiam essa transferência de conhecimento.

5. O Brasil é uma potência agrícola global. Como financiador e comprador de insumos para fertilizantes, como o senhor vê essa dinâmica financeira e potencial agrícola?

A transformação agrícola do Brasil traz lições valiosas para economias agrícolas emergentes como Omã. O que se destaca é o ecossistema sofisticado que apoia a expansão agrícola do Brasil – instrumentos financeiros especializados adaptados aos ciclos de produção agrícola, incluindo financiamento pré-plantio, mecanismos de seguro de colheita e estruturas de empréstimos lastreados em commodities.

Como comprador de insumos de fertilizantes e tecnologias agrícolas, acompanhamos de perto os avanços do Brasil em práticas agrícolas sustentáveis. Instituições de pesquisa brasileiras como a EMBRAPA desenvolveram variedades de culturas resistentes ao clima e técnicas de manejo do solo cada vez mais relevantes para regiões áridas como a nossa. A liderança do Brasil em insumos biológicos e agricultura de precisão apresenta oportunidades de parceria que estamos explorando.

O Brasil conseguiu equilibrar a agricultura comercial em larga escala com práticas sustentáveis emergentes. A integração dos sistemas lavoura-pecuária-floresta e a adoção do plantio direto demonstram que a produtividade e a sustentabilidade podem ser metas complementares e não competitivas.

Acredito que há um potencial significativo de cooperação entre a experiência agrícola brasileira e a capacidade de investimento do Oriente Médio. Estamos interessados em acordos de intercâmbio tecnológico e transferência de conhecimento que possam acelerar a inovação agrícola em Omã, proporcionando às empresas brasileiras de tecnologia agrícola acesso a novos mercados.

6. Como a abordagem de Omã ao financiamento agrícola difere dos sistemas de crédito em camadas do Brasil?

O Brasil desenvolveu um sistema sofisticado onde diferentes mecanismos de financiamento atendem segmentos específicos da cadeia de valor agrícola. Em contraste, a abordagem de Omã ainda está se desenvolvendo com características distintas:

Primeiro, o financiamento agrícola de Omã incorpora princípios financeiros convencionais e islâmicos. Instrumentos islâmicos como Murabaha, Ijara e Salam são particularmente adequados para aplicações agrícolas. No Banco Dhofar, estamos desenvolvendo produtos de financiamento agrícola islâmicos personalizados, alinhados com as necessidades práticas dos agricultores e considerações religiosas.

Em segundo lugar, Omã depende mais do apoio direto do governo do que de mecanismos baseados no mercado, fornecendo subsídios, doações e empréstimos concessionais por meio de entidades como o Fundo de Desenvolvimento Agrícola e Pesqueiro.

Em terceiro lugar, ao contrário das bolsas de commodities e mercados futuros agrícolas bem estabelecidos do Brasil, Omã carece de muitos instrumentos de gerenciamento de risco que tornem os empréstimos agrícolas mais previsíveis. Estamos compensando isso com o desenvolvimento de modelos de empréstimo baseados em relacionamentos que incorporam assistência técnica.

A principal diferença é que o sistema do Brasil evoluiu ao longo de décadas ao lado de sua expansão agrícola, enquanto Omã está se esforçando para desenvolver instrumentos financeiros e capacidade agrícola simultaneamente como parte de nossa estratégia de diversificação econômica.

7. Como as estruturas financeiras islâmicas podem beneficiar o agronegócio e onde o senhor vê sinergias com o Brasil?

O financiamento islâmico oferece vantagens estruturais para o financiamento agrícola que se alinham notavelmente bem com as características inerentes do setor. Em sua essência, as finanças islâmicas enfatizam o compartilhamento de riscos, transações lastreadas em ativos e investimento ético – princípios que criam modelos de financiamento mais sustentáveis do que os empréstimos convencionais baseados em juros.

O contrato Salam é talvez o instrumento islâmico que se adequa com mais naturalidade à agricultura – é essencialmente um contrato de compra a termo que fornece aos agricultores capital inicial e, ao mesmo tempo, dá aos compradores certeza de preço. Os acordos de Ijara (arrendamento) estão se mostrando valiosos para a mecanização agrícola, dando aos agricultores acesso à tecnologia sem violar os princípios islâmicos. Os modelos de parceria Musharaka e Mudaraba permitem o compartilhamento de lucros e perdas entre provedores de capital e operadores agrícolas.

As sinergias com o sistema de financiamento agrícola do Brasil são particularmente interessantes. Os instrumentos lastreados em commodities do Brasil, como os CPRs, funcionam de forma semelhante aos contratos de Salam, sugerindo oportunidades de adaptação. O financiamento de recibos de armazém – bem estabelecido no Brasil – pode ser facilmente adaptado a estruturas islâmicas como arranjos Murabaha ou Wakala.

Ao combinar os sofisticados mecanismos de financiamento agrícola do Brasil com as estruturas éticas das finanças islâmicas, podemos desenvolver modelos de financiamento que não sejam apenas compatíveis com a Sharia, mas potencialmente superiores no apoio ao desenvolvimento agrícola sustentável.

8. Que parcerias o senhor priorizaria para fortalecer os laços entre o agronegócio brasileiro e Omã/CCG?

Eu priorizaria cinco áreas específicas:

Primeiro, tecnologia agrícola adaptativa e transferência de conhecimento. O Brasil domina a agricultura em ambientes desafiadores, e essa experiência em remediação do solo, adaptação de culturas e agricultura eficiente em termos de recursos é diretamente relevante para nossos desafios em Omã.

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Em segundo lugar, formulações de fertilizantes especializadas para ambientes áridos. Vemos um tremendo valor em parcerias com inovadores brasileiros de fertilizantes que entendem a eficiência de nutrientes em solos desafiadores.

Em terceiro lugar, educação agrícola e capacitação para acelerar o desenvolvimento de nossa força de trabalho agrícola.

Quarto, parcerias de investimento em agroprocessamento e produção de valor agregado. A experiência do Brasil em processamento agrícola e a localização estratégica de Omã criam sinergias naturais para joint ventures no processamento de alimentos.

Quinto, tecnologias sustentáveis de gestão da água, onde a experiência do Brasil oferece informações valiosas para nossa região com escassez de água.

O que torna este momento oportuno é a crescente abertura do CCG ao investimento estrangeiro em setores agrícolas antes considerados estratégicos e restritos. A combinação de capital soberano, estruturas financeiras islâmicas e veículos de investimento convencionais fornece vários caminhos para o financiamento de empreendimentos colaborativos.

9. O que as instituições financeiras Green Oasis ou do Omã poderiam oferecer aos players agrícolas brasileiros?

Da minha perspectiva dupla, vejo três categorias principais de valor:

Primeiro, capital estratégico com horizontes de investimento pacientes. A região do CCG possui riqueza soberana significativa e capital privado que busca diversificação além das classes de ativos tradicionais, com uma perspectiva de longo prazo do que muitas fontes de capital ocidentais.

Em segundo lugar, acesso preferencial ao mercado do Oriente Médio, África Oriental e Sul da Ásia. A localização estratégica de Omã e a infraestrutura logística bem desenvolvida criam vantagens naturais para as empresas brasileiras que buscam expandir seu alcance, servindo como portas de entrada para um mercado de mais de 3 bilhões de consumidores.

Terceiro, um ambiente de teste e adaptação para tecnologias agrícolas áridas e semiáridas. À medida que o Brasil se concentra cada vez mais em sistemas agrícolas resilientes ao clima, Omã oferece um laboratório do mundo real para testar e refinar tecnologias projetadas para ambientes com recursos limitados.

Em essência, o que oferecemos é uma ponte – conectando a excelência agrícola brasileira com os recursos de capital, acesso ao mercado e prioridades estratégicas de nossa região para criar parcerias de valor agregado que transcendem simples relações comprador-vendedor.

10. Quais ferramentas de mitigação de risco o senhor vê como subutilizadas em mercados como Brasil ou Omã?

Vários instrumentos de mitigação de risco seguem subutilizados:

O seguro de índice meteorológico permanece significativamente inexplorado, mesmo em mercados sofisticados como o Brasil, apesar de sua eficiência na redução de custos administrativos e na aceleração da liquidação de sinistros.

Ferramentas avançadas de gerenciamento de risco de preço além dos contratos futuros básicos representam uma área de oportunidade, principalmente para produtores de médio porte.

Plataformas integradas de gerenciamento de riscos que abordam riscos inter-relacionados nas dimensões de clima, preço, produção e logística em uma única estrutura.

Inovações de financiamento da cadeia de suprimentos que distribuem o risco de forma mais equitativa em toda a cadeia de valor agrícola, como contratos de risco compartilhado.

Soluções de gerenciamento de risco habilitadas por tecnologia que aproveitam dados de satélite, sensores de IoT e análise preditiva para uma avaliação de risco mais precisa.

Mecanismos de agrupamento de risco transfronteiriço que reduzem a volatilidade geral do portfólio, potencialmente adaptados do princípio financeiro islâmico de takaful.

Certificações de agricultura sustentável que criam prêmios de mercado, protegendo os agricultores contra a volatilidade dos preços das commodities e alinhando a resiliência financeira com a gestão ambiental.

O traço comum entre essas abordagens é que elas exigem que as instituições financeiras se tornem verdadeiros parceiros de gerenciamento de risco para clientes agrícolas, exigindo uma experiência agrícola mais profunda e uma colaboração mais estreita entre bancos, seguradoras, mercados de commodities e provedores de tecnologia.

11. Que mensagem-chave o senhor compartilharia sobre o futuro da colaboração agrofinanceira Omã-Brasil?

A colaboração entre Omã e Brasil em financiamento agrícola representa não apenas uma oportunidade inexplorada, mas potencialmente um novo modelo de cooperação Sul-Sul que pode redefinir como a experiência agrícola e o capital fluem entre mercados emergentes.

O que torna essa parceria potencial atraente é a notável complementaridade entre nossos pontos fortes e necessidades. O Brasil possui experiência, tecnologia e capacidade de produção agrícola de classe mundial, enquanto Omã e o CCG oferecem capital de investimento substancial, acesso estratégico ao mercado e um compromisso com o desenvolvimento agrícola.

Imagino vários caminhos pioneiros: veículos de investimento híbridos combinando experiência agrícola brasileira com capital do CCG; iniciativas conjuntas de tecnologia agrícola focadas na resiliência climática; linhas de financiamento agrícola bilaterais que unem os sofisticados instrumentos de crédito do Brasil aos princípios financeiros islâmicos; e programas sistemáticos de intercâmbio de conhecimento.

O que mais me entusiasma é a oportunidade de estabelecer um novo paradigma para a colaboração agrícola – um que transcenda a relação tradicional comprador-vendedor para criar um alinhamento estratégico genuíno. Ao combinar a excelência agrícola brasileira com os recursos e a visão de Omã e do CCG, podemos estabelecer parcerias que contribuam significativamente para a segurança alimentar global, gerando retornos sustentáveis para todas as partes interessadas.

Entrevista elaborada e conduzida por Maria Cristina Calil e Marco Calil, editora-chefe e editor assistente da Agro Arabia.

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