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ETARISMO

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O tempo que agrega valor às empresas e contradiz a percepção sobre os profissionais experientes é conhecido como etarismo. No Brasil contemporâneo, vemos uma contradição que chama atenção: tempo no mercado confere valor às empresas, mas não necessariamente aos profissionais que acumulam décadas de experiência.

Enquanto uma organização anuncia orgulhosamente seus 30, 40 ou 50 anos de atuação como sinônimo de tradição, segurança e credibilidade, um profissional que chega aos 50 anos de idade com 25 ou 30 anos de carreira muitas vezes é alvo de rótulos como “velho”, “ultrapassado” ou “não atualizado”. Essa dicotomia não é apenas uma questão de linguagens revela um viés cultural profundo, conhecido como etarismo, e está diretamente ligada a mudanças demográficas que impactam o mercado de trabalho brasileiro.

As transformações da população brasileira: o passado e o futuro

A dinâmica populacional brasileira passou por uma transição profunda nas últimas décadas. Até meados do século XX, o país tinha uma população predominantemente jovem, com altas taxas de natalidade. Na década de 1960, por exemplo, a taxa média de filhos por mulher estava em torno de 6 filhos, um padrão comum em países em fase de transição demográfica. A partir dos anos 1970 e 1980, essa estrutura começou a mudar rapidamente. A transição demográfica significou queda nas taxas de natalidade e mortalidade, aumento da longevidade e, consequentemente, alterações na pirâmide etária.

Hoje, o Brasil vive essa revolução demográfica

A taxa de fecundidade total caiu para cerca de 1,55 filho por mulher, conforme dados recentes do Censo 2022, posicionando o país abaixo do nível de reposição populacional (aproximadamente 2,1 filhos por mulher). Esse padrão tende a se manter estável entre 1,5 e 1,6 filho por mulher nas próximas décadas, o que significa uma população que não se repõe em termos numéricos sem migração.

Essas mudanças têm impacto direto na composição etária da população. Em 2000, cerca de 8% da população brasileira tinha 60 anos ou mais. Em 2023, esse percentual já havia dobrado para cerca de 15%, e as projeções indicam que chegaremos a aproximadamente 29% da população com 60 anos ou mais em 2050 — ou quase 70 milhões de idosos.  Além disso, a proporção de idosos já cresce mais rapidamente do que a média mundial desde 2020. O número de pessoas com 65 anos ou mais cresceu 57,4% entre 2010 e 2022 no país. A idade média da população brasileira também está aumentando, um claro indicativo de envelhecimento estrutural. Esses dados mostram que o Brasil está deixando para trás a característica de um país jovem e se tornando, nas próximas décadas, uma sociedade mais velha, com desafios e oportunidades sociais e econômicas.

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Etarismo e mercado de trabalho: um paradoxo brasileiro

No universo corporativo, tempo significa trajetória, resiliência e capacidade de atravessar ciclos. A longevidade de uma empresa é associada a credibilidade e previsibilidade, fatores altamente valorizados por parceiros comerciais, investidores e clientes. Porém, essa mesma valorização do tempo e da experiência nem sempre é aplicada ao profissional com muitos anos de carreira.

No mercado de trabalho, profissionais com mais de 50 anos frequentemente enfrentam estigmas, são vistos como menos adaptáveis ou desatualizados. Tendem a ser excluídos de processos seletivos considerados “para perfis mais jovens”. Precisam provar constantemente sua capacidade de inovar, mesmo após décadas de resultados concretos.

O Agro e a “terceira idade” como valor estratégico

No setor agropecuário, essa contradição fica ainda mais evidente. Após um ciclo de bonança entre 2019 e 2023, o Agro enfrenta desafios mais complexos desde 2024, com margens de lucro comprimidas, volatilidade global e necessidade de soluções estratégicas para problemas sistêmicos e complexos. Nesse contexto, a experiência se torna um ativo valioso: Profissionais com décadas de atuação conhecem bem as sazonalidades do setor. Estão mais aptos a avaliar riscos e oportunidades em cenários inesperados. Contribuem para decisões que combinam conhecimento técnico e visão sistêmica, algo que muitas vezes falta em carreiras mais curtas.

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Ao mesmo tempo, com uma população envelhecida e em crescimento, haverá uma escassez relativa de jovens profissionais disponíveis para ocupar posições de destaque na força de trabalho. Isso pressiona o mercado a revalorizar a experiência, não apenas como atributo pessoal, mas como vantagem competitiva estratégica.

Uma leitura técnica com impacto social e econômico

O Brasil de 1980, um país com vasta maioria de jovens, é muito diferente do Brasil de 2025 e, ainda mais, do Brasil projetado para 2050. Essa transformação traz consequências diretas para:

  • Mercado de trabalho: Aumento da razão de dependência (relação entre população idosa e ativa). Em 1980 essa razão era muito baixa; em 2050, será várias vezes maior, exigindo mais profissionais experientes contribuindo por mais tempo.
  • Previdência e saúde: Mais idosos significa pressão fiscal maior sobre sistemas de saúde e previdência, além de desafios ligados à qualidade de vida e inclusão.
  • Economia prateada: Com um contingente crescente de idosos, surge também a chamada economia prateada, setores e serviços voltados às necessidades dessa faixa etária. Esse movimento evidencia que o envelhecimento populacional não é apenas um problema a ser administrado, mas uma oportunidade de mercado e inovação. Do preconceito à valorização estrutural. A realidade demográfica brasileira exige uma mudança de paradigma.

O tempo de mercado deve ser valorizado tanto para empresas quanto para profissionais. No Agro, onde a complexidade dos desafios cresce junto com as exigências por soluções sustentáveis e estratégicas, combater o etarismo e reconhecer a experiência como valor será um diferencial competitivo, não apenas um gesto de justiça social.

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