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SUSTENTABILIDADE NO AGRO COMO COMPETÊNCIA PROFISSIONAL: O NOVO EIXO DA CAPACITAÇÃO NO CAMPO

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Estamos realmente preparados para produzir de forma sustentável, ou apenas repetindo um discurso que ainda não dominamos na prática? Essa talvez seja a pergunta mais importante que o agronegócio brasileiro precisa responder neste momento em que a COP 30 recoloca o Brasil no centro das discussões globais sobre clima e produção de alimentos. Novamente, o agro volta a ser observado com expectativa. O setor, que responde por um quarto do PIB nacional, sempre foi reconhecido pela produtividade e pela capacidade de gerar resultados concretos. Agora, porém, o desafio é outro: mostrar ao mundo que é possível crescer com equilíbrio ambiental e social. Sustentabilidade deixou de ser um tema acessório para se tornar parte do conceito de eficiência, e isso exige algo além da tecnologia. Exige capacitação, estratégia e uma revisão profunda de valores e práticas.

Por trás de cada avanço técnico, é preciso haver pessoas preparadas para planejar, aplicar e mensurar boas práticas. Sustentabilidade não é apenas um atributo ambiental. É uma competência profissional que se desenvolve e se aperfeiçoa. O desafio atual não é apenas produzir mais, mas produzir melhor, com mínimo impacto e máxima eficiência, o que demanda qualificação constante em todas as etapas da cadeia.

A realidade atual exige uma análise criteriosa dos processos e um novo mapeamento de competências das pessoas e das organizações. A visão sistêmica do ambiente externo e do impacto das mudanças legais, ambientais, comerciais e de outras naturezas sobre o setor passa a se somar às competências já consolidadas, técnicas e comportamentais. Afinal, a cultura da sustentabilidade nasce da integração entre conhecimento técnico e comportamento responsável.

Capacitar para a sustentabilidade significa incorporar novas formas de pensar e fazer. Isso envolve compreender o ciclo de vida dos produtos, o manejo de recursos naturais e indicadores ambientais como balanço de carbono, uso racional de insumos e conservação do solo e da água. Como destacou Isan Rezende, presidente do Instituto do Agronegócio e da FEAGRO-MT, a sustentabilidade e a documentação caminham juntas, e quem compreender isso primeiro estará mais bem preparado para aproveitar as oportunidades que surgem com a nova realidade do agro. Essa compreensão nasce da formação de pessoas capazes de transformar discurso ambiental em prática operacional.

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Cada vez mais, produtores, gestores e técnicos precisam dominar conceitos como governança, rastreabilidade e mitigação de emissões. Esses conhecimentos já fazem parte do repertório profissional de quem quer permanecer competitivo em um mercado que valoriza produtividade e responsabilidade socioambiental.

A sustentabilidade também está nas decisões estratégicas e na inovação. Em muitas propriedades, a adoção de fontes alternativas de energia, como painéis solares, compostagem, biodigestores e sistemas de reaproveitamento de água, representa não apenas redução de custos, mas uma mudança cultural.

Outro eixo promissor é o turismo rural, alternativa de diversificação econômica e valorização cultural, especialmente para pequenas propriedades. Quando bem planejado, conecta produção, educação ambiental e experiência. Além de gerar renda, fortalece a relação entre campo e cidade. As pessoas buscam contato autêntico com o campo, afirma Wilma Alencar, fundadora do Armazém de Turismo Rural. Para ela, orientar empreendedores a transformar propriedades em negócios sustentáveis é um diferencial importante. Capacitar produtores para atividades turísticas sustentáveis é estratégia de desenvolvimento local e de fortalecimento da imagem do setor.

A agrofloresta, ainda em expansão, destaca-se como alternativa de baixo custo e impacto. O sistema integra árvores, lavouras e animais, promovendo equilíbrio ambiental e econômico. Sua adoção exige formação técnica e mudança de práticas, o que explica o aumento da busca por capacitação. Um estudo publicado na ScienceDirect identificou crescimento na adoção de sistemas agroflorestais na Amazônia nos últimos anos, e a Embrapa destaca o aumento significativo do ensino e da pesquisa agroflorestal em todas as regiões do país. Esses movimentos sinalizam maior interesse por modelos produtivos sustentáveis e, consequentemente, pela capacitação necessária para aplicá-los.

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Os próprios programas de capacitação podem ampliar suas metodologias para incluir o propósito ambiental. Em 2017, no treinamento vivencial ao ar livre “Vencendo Desafios® em Contato com a Natureza”, promovido para milhares de colaboradores de uma usina de bioenergia no Centro-Oeste, a El-Kouba Consultoria Empresarial adotou uma ação inovadora: adquiriu, junto à Embrapa, mudas de árvores nativas do Cerrado e as distribuiu aos participantes, que as plantaram em uma área antes desmatada. O resultado foi o nascimento de uma nova floresta, símbolo concreto de engajamento e fortalecimento dos valores de sustentabilidade da empresa.

Esse tema vem se consolidando como elemento cultural em muitas organizações do agro e tem sido incorporado aos programas de desenvolvimento comportamental. A AGT, que atua em agricultura e pecuária em três estados, desenvolveu um treinamento vivencial para seus colaboradores com o objetivo de reforçar seu propósito institucional: “Somos dedicados e humildes; somos curiosos e criativos; somos éticos e guiados pelo respeito às pessoas e ao meio ambiente, porque produzimos mais que alimentos — geramos sustentabilidade.”

A sustentabilidade do agro não será alcançada apenas por políticas públicas ou tecnologias importadas. Ela depende da formação de profissionais e produtores conscientes, preparados e tecnicamente competentes. Sustentabilidade não se improvisa. Aprende-se, treina-se, aplica-se. E, como toda competência essencial, precisa ser continuamente atualizada.

Mais do que uma exigência internacional, a sustentabilidade é hoje o idioma que o agro precisa dominar para dialogar com o futuro. Capacitar-se é preparar o campo para um novo ciclo, mais produtivo, inovador e responsável. Afinal, o futuro do agro será sustentável, ou simplesmente não será.

Amir El-Kouba, Psicólogo, Mestre em Estratégia, professor de MBAs da FGV e da USP, consultor e CEO da El-Kouba Consultoria Empresarial.

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