Durante décadas, o produtor rural brasileiro concentrou sua gestão de risco em fatores relativamente conhecidos: clima, preços das commodities, disponibilidade de crédito, custos de produção e produtividade. Esses elementos continuam sendo decisivos. Entretanto, a partir da safra 2027, uma nova camada de riscos passa a ganhar protagonismo e possui uma característica distinta: ela está fora da porteira e, em grande parte, fora do controle do próprio produtor.
A geopolítica passou a ocupar um espaço permanente nas decisões econômicas do agronegócio. A crescente fragmentação do comércio internacional, o avanço do protecionismo, a reorganização das cadeias globais de suprimentos, os conflitos armados, a disputa tecnológica entre Estados Unidos e China e o fortalecimento das exigências ambientais alteram profundamente o ambiente de negócios do setor agropecuário.
O mundo vive uma transição da globalização baseada na eficiência para uma economia baseada na segurança estratégica. Países passaram a priorizar a redução da dependência externa de insumos, alimentos, energia e tecnologias consideradas críticas. O resultado é um comércio internacional mais regionalizado, menos previsível e cada vez mais condicionado por interesses geopolíticos.
Os reflexos já são percebidos na logística internacional. A guerra entre Rússia e Ucrânia, os conflitos no Oriente Médio, especialmente envolvendo Israel, Irã e grupos armados na região, além das recorrentes tensões no Mar Vermelho, elevaram custos de transporte marítimo, ampliaram prazos de entrega e aumentaram a volatilidade dos fretes internacionais. Para um país altamente dependente de fertilizantes importados, como o Brasil, qualquer interrupção nessas rotas representa impacto direto sobre os custos da produção agrícola.
O mercado de fertilizantes permanece como um dos pontos mais sensíveis da agricultura brasileira. Rússia, Belarus, Canadá, China e Marrocos continuam exercendo papel determinante na oferta global de nutrientes. Qualquer sanção econômica, restrição comercial, embargo ou conflito envolvendo esses países pode provocar movimentos bruscos nos preços internacionais justamente durante o planejamento da próxima safra.
Outro fator de preocupação é a crescente volatilidade cambial. O fortalecimento do dólar, provocado por movimentos da política monetária americana ou por crises internacionais, eleva imediatamente o custo dos insumos importados. Embora o câmbio mais valorizado beneficie parte das exportações, ele também aumenta significativamente os custos de fertilizantes, defensivos agrícolas, máquinas, peças e diversos componentes tecnológicos utilizados nas propriedades rurais.
Ao mesmo tempo, a disputa tecnológica entre Estados Unidos e China amplia sua influência sobre o agronegócio mundial. A competição deixou de envolver apenas semicondutores e inteligência artificial para alcançar sistemas de comunicação, satélites, softwares, equipamentos agrícolas, biotecnologia e infraestrutura digital. Essa disputa poderá influenciar desde o acesso a determinadas tecnologias até a formação dos custos de equipamentos utilizados no campo brasileiro.
Outro movimento que ganha intensidade é a utilização crescente das normas ambientais como instrumento de acesso aos mercados internacionais. Cada vez mais, a competitividade agrícola deixa de depender exclusivamente de preço, produtividade e qualidade do produto. A comprovação da origem, da conformidade ambiental e da rastreabilidade passa a integrar o conjunto de requisitos exigidos pelos principais compradores mundiais.
Nesse contexto, destaca-se o Regulamento Europeu Antidesmatamento (EUDR), que estabelece novos critérios para a importação de commodities como soja, carne bovina, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma. Após o adiamento aprovado pela própria União Europeia, as grandes e médias empresas deverão cumprir integralmente as novas regras a partir de dezembro de 2026, enquanto as pequenas empresas terão prazo adicional.
Na prática, o regulamento exige que as empresas demonstrem, por meio de sistemas robustos de geolocalização, rastreabilidade e diligência, que os produtos comercializados não estejam associados ao desmatamento ocorrido após a data de corte estabelecida pela legislação europeia (31 de dezembro de 2020). Embora a obrigação recaia formalmente sobre exportadores, tradings, frigoríficos e processadores, seus efeitos alcançam toda a cadeia produtiva, inclusive o produtor rural.
Isso significa que a propriedade rural passa a produzir não apenas alimentos, mas também informações. Coordenadas geográficas, histórico de uso da terra, documentação ambiental, regularidade fundiária, registros produtivos e mecanismos de rastreabilidade tendem a se transformar em ativos econômicos tão relevantes quanto a produtividade da lavoura ou do rebanho.
A tendência é que outros mercados adotem mecanismos semelhantes. Reino Unido, Estados Unidos e diversos países asiáticos discutem instrumentos regulatórios voltados ao monitoramento das cadeias produtivas, reforçando uma convergência internacional em torno de critérios ambientais, sanitários e de governança.
Diante desse cenário, a preparação para a safra 2027 exige uma mudança de perspectiva. O planejamento da propriedade não poderá mais estar restrito ao orçamento da safra, à compra de insumos e ao manejo agronômico. Será necessário incorporar o monitoramento permanente do ambiente geopolítico, da política comercial internacional, das oscilações cambiais, das cadeias logísticas e da evolução das exigências regulatórias dos mercados consumidores.
Isso não significa que o produtor deva se transformar em especialista em relações internacionais. Significa reconhecer que a geopolítica passou a influenciar diretamente sua rentabilidade. Uma decisão tomada em Bruxelas, Washington, Pequim, Moscou ou Teerã pode alterar custos, mercados, preços e oportunidades com a mesma intensidade de uma estiagem ou de uma quebra de safra.
A agricultura brasileira continuará sendo uma das mais competitivas do mundo. Dispõe de escala, tecnologia, eficiência produtiva e capacidade de expansão. Contudo, essas vantagens precisarão ser acompanhadas por inteligência estratégica, gestão de riscos e capacidade de adaptação a um ambiente internacional muito mais complexo.
A safra 2027 inaugura um novo ciclo para o agronegócio brasileiro. O maior desafio talvez já não esteja apenas dentro da porteira. Ele estará, cada vez mais, na capacidade de compreender e antecipar os movimentos da economia internacional, da geopolítica e das novas regras que passam a definir quem poderá competir nos mercados globais.














