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Aviação Agrícola no Brasil: História, Inovações e Crescimento

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A Aviação Agrícola no Brasil teve seu marco inicial em 1947, em resposta a um severo ataque de gafanhotos na região de Pelotas, no Rio Grande do Sul. Foi em 19 de agosto daquele ano que ocorreu o primeiro voo agrícola no país, uma data que, mais tarde, seria oficializada como o Dia Nacional da Aviação Agrícola. O responsável por esse voo histórico foi o piloto civil Clóvis Candiota, que, ao lado do Engenheiro Agrônomo Leôncio Fontelle, aplicou produtos químicos com o objetivo de conter a infestação de gafanhotos. Esse momento não apenas marcou o início das operações de aviação agrícola no Brasil, como também consolidou Clóvis Candiota como o Patrono da Aviação Agrícola, reforçando a importância dessa prática para o desenvolvimento do setor agrícola brasileiro.

No contexto da regulamentação, o setor possui o Decreto-Lei nº 917 do ano de 1969, regulamentado pelo Decreto nº 86.765 do ano de 1981, que estabeleceu pela primeira vez o uso da aviação agrícola no Brasil, sob a coordenação, orientação e fiscalização do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Essa regulamentação modernizou a agricultura brasileira, proporcionando ao produtor rural um método de pulverização eficiente, ágil e seguro no controle de pragas e doenças do campo. Na Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) se destaca a RBAC137 onde apresenta todas as obrigações que as empresas e profissionais envolvidos devem seguir. Desde a entrega de relatórios devidamente assinados por todos os profissionais envolvidos todo o dia 15 do mês, passando pela obrigatoriedade de 3 profissionais com cursos específicos chancelados pelo MAPA, distâncias de aplicação de rios, casas, cidades etc., até pátio de descontaminação do avião e helicóptero, a aviação agrícola do Brasil segue sendo uma das regulamentadas e exigidas no mundo em nível federal, estadual e por vezes municipal.

Sabemos que o grande desafio do agronegócio mundial é assegurar sua sustentabilidade, o que inclui aumentar a segurança na aplicação aérea de defensivos agrícolas sem perder de vista a produtividade adequada para os negócios apresentarem sustentação econômica. O Brasil é o terceiro maior exportador mundial de produtos agropecuários, aproximadamente USD 150,1 bilhões e os aviões se destacam pela sua eficiência e rapidez (TradeMap, ITC, 2023). Como exemplo podemos citar o potencial de entrega de um piloto somente. Um piloto pode entregar 1200 hectares de aplicação em 3 horas sendo que, segundo o Ministério da Agricultura para isso acontecer com um costal precisaríamos de no mínimo 1200 pessoas aplicando o dia todo, e em torno de 24 tratores, por isso os aviões apresentam ganhos significativos. Outra vantagem é que o avião não amassa a cultura, não transporta doenças de uma lavoura a outra e aplica de maneira uniforme por não sofrer as irregularidade do solo. Para pequenas e médias lavouras os drones tem atendido de maneira eficaz pelo seu porte que vem crescendo e pela facilidade de uso. Dado um contexto inicial do setor, vamos analisar a relevância dessa atividade na sua força econômica.

Crescimento da frota

O setor aeroagrícola do Brasil, impulsionado por mais de 20 culturas, como soja, banana, café, cana-de-açúcar, arroz, milho, macadâmia, trigo, eucalipto, laranja, algodão, cacau, feijão, batata, seringueira, pastagem, mandioca, oliveira, alface, entre outras, tem registrado um crescimento significativo tanto no número de aeronaves tripuladas e não tripuladas quanto na potência e no porte dessas aeronaves. Em 2009, quando o SINDAG, por meio do Dr. Eduardo Cordeiro de Araújo, iniciou o levantamento da frota utilizando dados abertos da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) e cruzando essas informações com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e pesquisas internas, foram identificadas 1.498 aeronaves, incluindo aviões e helicópteros. Já em 2023, esse número aumentou para 2.719 aeronaves, segundo a atualização que realizamos, representando um crescimento de 45% nos últimos 15 anos, com uma média anual de crescimento de 4,47%. Esse avanço trouxe novas questões a serem abordadas, uma vez que o crescimento do setor aeroagrícola acompanha o crescimento da agricultura brasileira.

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Ao longo dessa jornada de crescimento, observamos que as aeronaves importadas tiveram um avanço em relação às nacionais, com um aumento de 5% em 7 anos, passando de 40% em 2016 para 45,5% em 2023. As aeronaves importadas destacam-se por serem equipadas com motores turbo, o que lhes confere a capacidade de carregar mais combustível, permanecendo mais tempo no ar e transportando uma quantidade maior de produto ou água no hopper, conhecido informalmente como tanque. Paralelamente, as lavouras brasileiras, como as de soja (crescimento de mais de 4% ano de 2022 a 2022) e cana-de-açúcar (crescimento de mais de 3% ano de 2022 a 2022), estão se expandindo, exigindo aeronaves capazes de realizar mais aplicações com menos paradas para reabastecimento de combustível e de produtos ou água no hopper, tornando-se, assim, mais produtivas do que as aeronaves menores. No entanto, é importante ressaltar que cada tipo de aeronave possui suas especialidades, atendendo melhor a determinadas culturas como arroz e banana, que são geralmente cultivadas em áreas menores, irrigadas ou em regiões montanhosas, adequando-se melhor a aeronaves de menor porte.

Considerando o crescimento exponencial do setor no Brasil, com uma média anual de 4,47%, estima-se que, em 2027, a frota de aeronaves tripuladas chegará a aproximadamente 3.010 unidades. Esse incremento representará um aumento de 9,6% na frota aeroagrícola. A participação das aeronaves importadas na frota deve crescer de 45,5% para 48,6% até 2027, impulsionada pela demanda por motores turbo, que são mais adequados para grandes extensões de terra. Para atender ao mercado brasileiro nos anos de 2025, 2026 e 2027, as fabricantes precisarão entregar pelo menos 150 novas aeronaves importadas, representando um crescimento de 10,8% na frota de aeronaves importadas. Nesse cenário, a Embraer, fabricante nacional precisará fornecer 141 aeronaves nacionais, correspondendo a um aumento de 8,6%. É importante destacar que esses cálculos se baseiam nos dados da frota dos últimos 15 anos e não apenas nas tendências mais recentes, o que pode gerar variações em relação às percepções atuais de vendas.

Geração de negócios

Com essa movimentação, a venda de aeronaves pode gerar um potencial de negócios de R$ 1,7 bilhões, sendo R$ 1,2 bilhões provenientes de aeronaves importadas e R$ 507 milhões de aeronaves nacionais para 2027, com base na média de preços das fabricantes Embraer e Air Tractor em agosto de 2024m sem considerar a inflação. Esse valor também não inclui o incremento na venda de combustíveis necessários para a operação das aeronaves, nem nas peças que podem ser utilizadas tanto nas aeronaves novas quanto na reposição para manutenção.

Além disso, o setor aeroagrícola demonstra um expressivo potencial de entrega quando consideramos a aplicação de produtos na agricultura. Se as 2.719 aeronaves tripuladas (frota de 2023) aplicarem em uma média de 50.000 hectares por safra, isso resultaria em mais de 135 milhões de hectares atendidos por safra (levando em conta que as aeronaves aplicam mais de uma vez no mesmo local e em diferentes culturas). Este número de 50.000 hectares por aeronave foi obtido a partir de uma pesquisa com mais de 50 empresas, onde a área coberta por aeronave variou de 8.000 a 200.000 hectares por safra. Foi levado em consideração a quantidade de aeronaves turbo e as movidas a motor a pistão com capacidade maior. Considerando essa média, o setor aeroagrícola pode ter gerado um potencial econômico de mais de R$ 8 bilhões apenas com o serviço de aplicação. Com o crescimento esperado da frota, esse valor pode superar R$ 9 bilhões, somente em negócios gerados pelo serviço de aplicação aérea.

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Apesar de ser um valor significativo o maior impacto econômico não está no serviço de aplicação em si, mas na produtividade que ele proporciona às culturas atendidas. Algumas culturas, conforme demonstrado pelo estudo do ProHuma (2019), dependem significativamente da aplicação aérea em suas práticas fitossanitárias, conforme ilustrado na tabela abaixo.

Cultura %
Arroz irrigado 72
Cana de açúcar 52
Algodão 44
Milho safrinha 16
Milho verão 15
Soja 10

 

Ao considerarmos apenas a cana-de-açúcar, uma cultura alta e densa que depende da aplicação aérea, constatamos que a produção poderia sofrer uma queda de até 52% caso houvesse restrições à atividade aeroagrícola. Isso tornaria a cultura inviável no Brasil, especialmente devido ao clima tropical do país. De acordo com o Ministério da Agricultura (MAPA), o PIB da cana-de-açúcar aumentou de R$ 90,2 bilhões em 2019 para R$ 95,9 bilhões em 2022. Sem a produtividade proporcionada pela aplicação aérea, o PIB do setor canavieiro poderia cair pela metade, resultando em um impacto severo e incalculável na sua capacidade de empregabilidade.

Além do impacto significativo causado pelas aeronaves agrícolas, o segmento de aeronaves aeroagrícolas não tripuladas, como os drones, também está experimentando um crescimento exponencial. De acordo com dados do Siscomex (2023), órgão responsável por monitorar a entrada de produtos importados no Brasil, mais de 9 mil drones de pulverização foram importados recentemente, demonstrando a crescente adoção dessa tecnologia nas lavouras brasileiras.

Culturas como arroz, soja, cana-de-açúcar, eucalipto, banana e café, entre outras, já fazem uso intensivo dos drones, que atendem áreas onde aviões convencionais não conseguem operar, além de corrigirem eventuais falhas nas aplicações em meio a uma grande lavoura (catação). O que realmente chama a atenção, no entanto, é a substituição de pulverizadores costais e autopropelidos por drones de maior capacidade e em maior quantidade. Com base em pesquisas realizadas com empresas do setor de drones no Brasil, constatou-se que a média de área atendida por safra, com o uso de um drone com tanque de 40 litros, varia entre 4.000 e 6.000 hectares.

Para concluir, é importante destacar que, apesar dos desafios relacionados à imagem do setor, muitas vezes afetada pelo uso inadequado e percepções distorcidas, a aviação agrícola no Brasil permanece essencial para a sustentabilidade e produtividade do agronegócio. Garantindo eficiência e segurança no manejo das lavouras, o setor continua a crescer, impulsionado tanto pela expansão da frota de aeronaves tripuladas quanto pelo avanço significativo das não tripuladas. Essa evolução tecnológica diversifica as opções disponíveis aos produtores, permitindo o atendimento rápido e preciso de grandes a pequenas áreas. Assim, a aviação agrícola se consolida como uma ferramenta indispensável, contribuindo de forma significativa para a economia brasileira e fortalecendo a competitividade global do agronegócio nacional.

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