O Brasil saiu da COP30 com uma mensagem clara: temos responsabilidade socioambiental, capacidade técnica e experiência para liderar rotas de produção de alimentos e energia com menores emissões. Mas transformar compromissos em resultados exige mais do que discursos em palcos internacionais. É preciso ação concreta, políticas públicas consistentes, financiamento acessível e profissionais preparados para orientar o produtor rural em cada etapa da transição.
Assistência técnica: o elo perdido da transição verde
Sem assistência técnica, não há transição. O produtor rural enfrenta exigências crescentes de rastreabilidade, certificação e comprovação ambiental para acessar mercados internacionais.
Na maioria dos municípios, a extensão rural ainda não chega de forma efetiva às propriedades. Isso limita a adoção de práticas de baixo carbono e a implementação de protocolos globais em soluções adaptadas à realidade das pequenas e médias propriedades. Políticas públicas bem estruturadas são fundamentais para garantir que sustentabilidade e produtividade avancem juntas.
Rastreabilidade: o passaporte para o mercado internacional
Nos painéis técnicos da COP30, ficou evidente que a exigência por rastreabilidade vai se intensificar. O mercado pressiona por provas da origem dos produtos, sistemas que comprovem cadeia de custódia e ausência de desmatamento.
Para muitos produtores, especialmente em áreas remotas, isso significa investir em sistemas digitais, certificação e regularização fundiária — requisitos indispensáveis para comercializar seus produtos em mercados cada vez mais exigentes.
De punidor a parceiro: o papel do Estado
O setor que sustenta o PIB nacional não pode ser tratado como criminoso por padrão. É urgente superar a cultura de criminalização do produtor rural e construir políticas públicas que reconheçam sua importância estratégica.
O Estado deve substituir a lógica punitiva pela corresponsabilidade, criando condições reais para viabilizar a regularização das áreas rurais e assumir papel protagonista na transição verde. Essa é a mudança de narrativa que o Brasil precisa consolidar.
O protagonismo dos profissionais
Nesse contexto, os profissionais das engenharias, da agronomia e das geociências assumem papel estratégico. São eles que podem orientar a implementação de ferramentas digitais, apoiar processos de certificação e garantir que protocolos de rastreabilidade sejam aplicados de forma prática e eficiente.
Sua atuação técnica é a ponte entre exigências globais e a realidade local, permitindo que o produtor rural mantenha competitividade sem perder acesso a mercados estratégicos.
Sistema CONFEA/CREA: inteligência para o desenvolvimento
O Conselho Federal de Engenharia e Agronomia tem a oportunidade de liderar programas de capacitação contínua em rastreabilidade, certificação e agricultura de baixo carbono, preparando seus profissionais ativos (1.170.216) para melhor prestação de serviços na produção primária, industrialização e comercialização dos produtos e subprodutos agropecuários e minerais.
O CONFEA pode avançar e criar um Observatório das Engenharias, capaz de transformar dados das prestações de serviços lançados nos sistemas dos Conselhos Regionais de Engenharia e Agronomia (CREA) em indicadores, entre eles, da produção agropecuária, construção civil, exploração geológica e industrialização. Esses índices servirão de base para políticas públicas municipais, estaduais e federais, fortalecendo a tomada de decisão e garantindo que o conhecimento técnico se converta em planejamento estratégico para o desenvolvimento nacional.
Caminhos práticos para o futuro
O desafio dos próximos meses será transformar consenso em ação. Para que sustentabilidade e produtividade avancem juntas, o Brasil precisa:
- Expandir a assistência técnica extensiva, com soluções digitais acessíveis às pequenas e médias propriedades.
- Criar mecanismos financeiros simples e previsíveis, voltados à recuperação de pastagens e práticas de baixo carbono.
- Fortalecer a rastreabilidade e a certificação, garantindo acesso a mercados internacionais cada vez mais exigentes.
- Valorizar o produtor rural como parceiro estratégico, e não como alvo de políticas punitivas.
- Estruturar o Observatório das Engenharias como ferramenta de inteligência para orientar políticas públicas.
Conclusão
Mais do que anúncios em conferências, é hora de construir caminhos práticos. O produtor rural precisa de regras claras, segurança jurídica, financiamento acessível e assistência técnica eficiente. E os profissionais a missão de liderar essa transformação, mostrando que é possível produzir com sustentabilidade, produtividade e competitividade. E, o Estado, assumir a responsabilidade em regularizar as propriedades e unidades produtivas, em vez de multar e embargar.
Isan Rezende, Produtor Rural, Advogado, Engenheiro Agrônomo, Jornalista e Comunicador.















