O Brasil chega às eleições de 2026 em um momento sensível para o agronegócio. Mais do que a escolha de nomes, está em jogo qual ambiente econômico, fiscal, jurídico e regulatório o país oferecerá para quem produz e investe nos próximos anos.
O agro brasileiro provou capacidade de aumentar produção, produtividade e participação no mercado internacional. Mas essa eficiência dentro da porteira convive com problemas que o produtor não resolve sozinho: juros elevados, restrições de crédito, gargalos de infraestrutura, insegurança jurídica, pressão fiscal e instabilidade regulatória. É nesse ambiente que a eleição ganha dimensão econômica.
O capital está mais seletivo
O comportamento do investimento estrangeiro merece atenção. Depois de um início de ano com forte ingresso de recursos, agosto registrou retirada relevante de capital estrangeiro da Bolsa brasileira. Seria equivocado atribuir esse movimento apenas às eleições. Juros internacionais e oportunidades em outros mercados também influenciam as decisões.
Mas o componente doméstico existe. À medida que a disputa eleitoral avança, investidores procuram antecipar a política econômica de 2027, observando resultado fiscal, trajetória da dívida pública, tributação e estabilidade institucional.
Para o agronegócio, isso importa porque o capital internacional participa de projetos de infraestrutura, energia, logística, fertilizantes, armazenagem, agroindústria e tecnologia. O Brasil disputa esses recursos com outros países. Quanto maior a percepção de risco, maior será o retorno exigido para investir aqui.
Há ainda um segundo canal: o câmbio. Para um setor que importa grande parte dos fertilizantes, defensivos, máquinas e componentes, a volatilidade do real altera custos antes mesmo do plantio — ao mesmo tempo, uma moeda depreciada pode favorecer receitas de exportação.
Os juros mudaram a conta do agro
Com a Selic em 14% ao ano, o custo financeiro tornou-se uma variável decisiva para o setor.
A agricultura precisa de capital antes de gerar receita. Sementes, fertilizantes, defensivos, diesel, máquinas, mão de obra e serviços são pagos meses antes da comercialização. Parte desse financiamento passa pelas linhas oficiais, mas o crédito privado ganhou importância por meio de CPRs, Fiagros, CRAs e operações de barter.
Juros elevados percorrem toda a cadeia. Revendas financiam estoques, cooperativas precisam de capital de giro, indústrias carregam matérias-primas e tradings antecipam recursos. O efeito alcança até quem utiliza capital próprio, pois aumenta o custo de oportunidade do dinheiro.
Para produtores já endividados após problemas climáticos ou redução das margens, o desafio é ainda maior. Alongar uma dívida reorganiza pagamentos, mas não garante capacidade para financiar a próxima safra.
Segurança jurídica é um ativo econômico
Outro tema que deveria ocupar o centro do debate eleitoral é a segurança jurídica. Não se trata de defender menos fiscalização, mas normas claras, estabilidade regulatória, respeito aos contratos, previsibilidade tributária e coerência nas decisões administrativas e judiciais.
No agronegócio, mudanças de interpretação sobre questões ambientais, fundiárias, tributárias ou creditícias podem alterar a viabilidade de investimentos iniciados anos antes. Uma ferrovia, um terminal portuário, uma indústria de fertilizantes, uma usina de biocombustíveis ou um projeto de irrigação atravessam governos.
Quem investe precisa saber se as condições consideradas hoje continuarão minimamente previsíveis durante o período necessário para recuperar o capital. Quando essa previsibilidade diminui, o risco aumenta, o retorno exigido sobe e projetos podem migrar para mercados mais seguros.
A transição tributária acrescenta outra variável. O agro precisará adaptar contratos, sistemas, créditos fiscais e estruturas comerciais às novas regras. A reforma pode gerar eficiência, mas sua implementação exigirá clareza e previsibilidade para evitar custos e novos contenciosos.
Investimentos não pode esperar
O Brasil tem uma agenda que não comporta sucessivos adiamentos. Produzimos cada vez mais, mas ainda convivemos com déficit de armazenagem, gargalos logísticos, necessidade de expansão portuária e forte dependência da importação de fertilizantes. Precisamos avançar também em irrigação, energia e industrialização.
O próximo ciclo do agronegócio não será construído apenas aumentando a produção. Será necessário armazenar melhor, transportar com menor custo, industrializar e agregar valor.
Em um setor que planeja safras, amplia plantas industriais e contrata infraestrutura com anos de antecedência, a incerteza tem efeito imediato: decisões são postergadas, projetos reavaliados e recursos direcionados para alternativas com melhor relação entre risco e retorno. O custo da espera também entra na conta.
O Estado tem papel fundamental no planejamento, na regulação, na pesquisa e na infraestrutura estratégica, mas não possui capacidade fiscal para financiar sozinho essa transformação. O crescimento dependerá da mobilização de capital privado nacional e internacional.
O que deve estar em discussão nas urnas
O debate eleitoral do agronegócio não deveria se limitar a identificar candidatos que se apresentam como próximos do setor. O que importa é avaliar quais propostas melhoram efetivamente o ambiente para produzir, financiar, investir, industrializar e exportar.
Responsabilidade fiscal influencia juros e confiança. Segurança jurídica define risco. Infraestrutura determina competitividade. Política comercial amplia mercados. Crédito sustenta produção e investimento. Pesquisa e inovação constroem a competitividade futura.
Essas responsabilidades não estão concentradas apenas na Presidência da República. Congresso Nacional, governos estaduais e assembleias legislativas também tomam decisões que interferem diretamente no ambiente de negócios.
O agronegócio brasileiro já conquistou competitividade extraordinária na produção. O próximo salto precisa acontecer no ambiente que cerca essa produção. O Brasil não precisa mais provar ao mundo que consegue produzir alimentos, fibras e energia em escala; precisa demonstrar que oferece condições institucionais para transformar essa vantagem produtiva em investimento, industrialização e geração de valor.
A eleição de 2026 não decidirá apenas quem governará o país pelos próximos quatro anos. As escolhas feitas agora ajudarão a determinar se o capital necessário ao próximo ciclo de crescimento encontrará no Brasil segurança, previsibilidade e condições para investir no longo prazo.
Isan Rezende















