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PROFERT: PRODUZIR FERTILIZANTES É APENAS A MEDADE DA EQUAÇÃO

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O Brasil construiu uma das agriculturas mais competitivas do mundo sobre uma contradição que precisa ser enfrentada. Somos uma potência na produção e exportação de alimentos, fibras e energia, mas dependemos do exterior para aproximadamente 85% dos fertilizantes que utilizamos.

Isso significa que uma parte relevante da segurança da agricultura brasileira está exposta ao câmbio, à geopolítica, aos custos de energia e fretes, às restrições comerciais e às decisões de países fornecedores.

É nesse contexto que surge o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes — Profert, sancionado em setembro de 2026. A iniciativa busca estimular investimentos na produção nacional, reduzir nossa dependência externa e aumentar a segurança do abastecimento. O programa é necessário e chega em boa hora. Mas proponho ampliar a discussão.

Tão importante quanto discutir quanto fertilizante conseguimos produzir no Brasil é perguntar: estamos utilizando com máxima eficiência agronômica os milhões de toneladas de nutrientes que aplicamos todos os anos?

O Profert estabelece instrumentos para estimular a produção brasileira de fertilizantes e matérias-primas, contemplando também remineralizadores, bioinsumos e biofertilizantes.

A lógica é correta. O Brasil precisa recuperar capacidade industrial, atrair investimentos e criar condições para projetos de longo prazo. Financiamento adequado, segurança regulatória e competitividade são fundamentais para uma indústria intensiva em capital, energia, mineração, logística e tecnologia.

Há ainda um componente estratégico. Os últimos anos mostraram como guerras, sanções econômicas e problemas logísticos podem rapidamente afetar o preço e a disponibilidade dos fertilizantes.

Portanto, reduzir nossa dependência externa é também reduzir o risco da agricultura brasileira.

Mas precisamos reconhecer uma realidade: dificilmente seremos 100% autossuficientes e talvez nem seja economicamente interessante buscar esse objetivo a qualquer custo. Por isso, nossa estratégia não pode se limitar à pergunta: como produzir mais fertilizantes? Precisamos acrescentar outra: Como utilizar melhor os fertilizantes que temos?

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Grande parte dos solos brasileiros apresenta naturalmente condições de acidez que precisam ser corrigidas para sustentar sistemas agrícolas de alta produtividade, além da acidificação anual do uso dos próprios fertilizantes. Quando essa correção é insuficiente, podemos limitar o desenvolvimento das raízes, reduzir a disponibilidade de determinados nutrientes e, consequentemente, diminuir a eficiência agronômica do fertilizante aplicado.

Não significa afirmar simplesmente que o fertilizante aplicado em solo ácido é “perdido”. A questão é mais precisa: parte do potencial agronômico e econômico daquele investimento pode deixar de ser aproveitada pela planta quando não construímos adequadamente o perfil de fertilidade do solo. Para um país que importa aproximadamente 85% dos fertilizantes que utiliza, essa discussão deveria ter dimensão estratégica.

Em 2025, o Brasil consumiu aproximadamente 61,3 milhões de toneladas de calcário agrícola. Estimativas da Associação Brasileira dos Produtores de Calcário Agrícola – ABRACAL indicam, entretanto, que, considerando as características dos nossos solos e a dimensão da agricultura brasileira, o consumo adequado estaria próximo de 80 milhões de toneladas por ano, defasagem estimada em aproximadamente 30%. Ou seja, hoje com fertilizantes escassos e caros, já estamos perdendo potencial.

De um lado, dependemos do exterior para aproximadamente 85% dos fertilizantes e estamos criando uma política nacional para ampliar nossa produção.

Do outro, ainda utilizamos abaixo do potencial um insumo produzido dentro do Brasil, disponível em diversas regiões agrícolas e fundamental para aumentar a eficiência do uso desses nutrientes. O calcário não substitui fertilizantes. Essa distinção é fundamental. Sua importância está em ajudar a construir um ambiente de solo no qual o investimento realizado em fertilizantes possa expressar melhor seu potencial.

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A correção adequada da acidez reduz limitações químicas, fornece cálcio e magnésio e favorece o desenvolvimento radicular. Raízes mais desenvolvidas exploram maior volume de solo e aumentam a capacidade da planta de acessar água e nutrientes. Essa lógica deveria fazer parte da discussão nacional sobre fertilizantes. Hoje medimos nossa vulnerabilidade principalmente pela relação entre fertilizantes importados e produzidos internamente. Mas existe outra maneira de reduzi-la. Imagine avançarmos simultaneamente em duas frentes.

Na primeira, aumentamos nossa produção doméstica de fertilizantes e diversificamos as fontes de abastecimento daquilo que continuaremos importando. Na segunda, aumentamos continuamente a eficiência agronômica de cada unidade de nutriente utilizada na agricultura brasileira. Passamos então de uma política exclusivamente voltada à oferta de fertilizantes para uma estratégia de segurança nutricional da agricultura brasileira. Além de contar que estamos vivendo anos de forte adversidade climática e um solo bem corrigido atua como um seguro para quem financia. Para quem fornece crédito, fomentar a correção de solo é a certeza de externar todo o potencial produtivo e consequentemente de cumprir os compromissos de pagamento.

O Profert é uma iniciativa importante. Mas o sucesso dessa política não deveria ser medido somente pelo número de fábricas construídas ou pelas toneladas que deixaremos de importar. Mas sim, quanto resultado agrícola conseguimos produzir com cada tonelada de nutriente utilizada.

“Se o fertilizante é caro, importado e estratégico para o Brasil, desperdiçar sua eficiência agronômica por falta de correção adequada do solo também é uma forma de dependência externa.” Por isso recomendo uma discussão mais ampliada deste tema, incluindo o uso mais eficiente destes nutrientes importados ou nacionais com a utilização do calcário agrícola.

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