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Capa da 25ª Edição

RETROSPECTIVA 2025

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O ano de 2025 ficará marcado na memória do agronegócio brasileiro como um ano de choques e de confirmações: choques geopolíticos e tarifários, pressões inflacionárias e tensões sanitárias; confirmações de que o país continua entre os gigantes agrícolas do planeta e de que o setor, quando articulado, tem musculatura política e técnica suficiente para negociar, diversificar mercados e avançar em agendas de sustentabilidade.

Entre sustos e vitórias, o campo mostrou resiliência operacional e também uma capacidade política de reverter ameaças, ao mesmo tempo em que abriu espaço para debates que prometem reformular regras de jogo ambientais e fiscais.

O principal número que resume a dimensão econômica do setor não deixa margem para dúvidas: para 2025 o Valor Bruto da Produção (VBP) agropecuária do Brasil projeta-se acima de R$ 1,4 trilhão, crescimento de dois dígitos frente a 2024 e sustentado por ganhos de preço e produtividade nas principais cadeias. O salto foi resultado do bom desempenho de lavouras como milho, café, algodão e cacau, e da continuidade da modernização da pecuária. Essa magnitude transformou o agro no motor indiscutível da recuperação e do superavit comercial do país ao longo do ano.

No campo, a safra 2025/26 veio com números que espantam: a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estimou a produção total de grãos em 354,7 milhões de toneladas, com área semeada projetada em 84,4 milhões de hectares – novo recorde de extensão e produtividade parcial em culturas-chave. Soja e milho mantiveram o protagonismo; o milho, especialmente pelas três safras que se consolidaram no Centro-Oeste, e a soja pela robustez nas exportações. Esses volumes explicam em larga medida a capacidade do país de deslocar ofertas diante de choques externos.

Tarifaço

O capítulo mais dramático do ano foi a guerra tarifária desencadeada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que começou com um pacote de tarifas mínimas anunciado em abril e escalou para um “tarifaço” no meio do ano: em 2 de abril Trump editou medida que estabeleceu uma tarifa mínima de 10% sobre importações e, em 30 de julho, publicou nova ordem executiva que acrescentou uma sobretaxa de 40%, elevando a alíquota total para 50% sobre uma larga lista de produtos brasileiros quando as medidas passaram a vigorar no início de agosto de 2025.

A lista de itens atingiu café (grão e processados), carnes (principalmente bovina e parte das proteínas processadas), açúcar e derivados, subprodutos do suco de laranja, alguns itens da indústria de transformação e produtos alimentícios processados, entre outros (como a piscicultura, por exemplo).

Os prejuízos, segundo estimativas da Secretaria de Comércio Exterior (SECEX/MDIC) indicaram que cerca de 35,9% das exportações brasileiras aos EUA — o equivalente a US$ 14,5 bilhões (base 2024) — ficaram sujeitas à sobretaxa de 50%; outros 19,5% já enfrentavam tarifas específicas (como 25% para autopeças), e 44,6% foram excluídos da sobretaxa. No curto prazo observou-se um choque nítido: as exportações brasileiras ao mercado americano caíram de forma aguda em agosto (queda de cerca de 18,5% nas vendas ao país em comparação com o ano anterior), com recuos particularmente acentuados em rubricas como açúcar (queda da ordem de 88% em agosto) e carne bovina fresca (queda próxima de 46% naquele mês), conforme estatísticas de comércio consultadas por veículos setoriais.

Projeções de impacto econômico em horizonte mais longo, estimadas por órgãos de pesquisa, como as federações industriais, apontaram que, caso o tarifaço se mantivesse sem remediação, o Brasil poderia registrar perdas acumuladas relevantes. Por exemplo, simulações da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg) indicaram uma perda potencial de até R$ 175 bilhões em 5–10 anos, com retração do Produto Interno Bruto (PIB), perda de emprego e efeitos sobre renda e arrecadação. Setores com exportações mais integradas — indústria de transformação e produtos alimentícios processados — foram os que, pelas análises, concentrariam os maiores danos em valor agregado.

Para o setor, aquilo que poderia ter sido uma catástrofe transformou-se, com rapidez, numa crise de estratégia comercial: mobilização diplomática, diversificação de clientes e ativismo das associações setoriais. As parcerias do Brasil com novos mercados consumidores ajudaram o país a amenizar significativamente os impactos do tarifaço norte-americano no país. Além disso, o Brasil respondeu politicamente e legislativamente: o Congresso aprovou o chamado PL da Reciprocidade (PL 2.088/2023), convertendo-o depois em lei, arma jurídica que deu ao Executivo ferramentas para reagir a barreiras comerciais consideradas injustas. A resposta incluiu também esforços de diplomacia que, no fim do ciclo, culminaram na suspensão de parte das sobretaxas e na reabertura de canais com compradores americanos — episódio que expôs a interdependência comercial e a força do agro como ator nas negociações bilaterais.

As exportações do setor, mesmo diante da volatilidade, se mantiveram robustas. As exportações do agronegócio voltaram a acelerar em novembro e reforçaram o peso do setor na balança comercial. Segundo dados do MDIC, no acumulado de janeiro a novembro, o agronegócio somou R$ 382 bilhões em exportações, alta de 5% em relação a 2024. A soja recuperou a liderança como principal produto vendido pelo Brasil em 2025, enquanto a China manteve a posição de principal destino, seguida pela União Europeia e pelos Estados Unidos.

Frente Parlamentar Agropecuária (FPA)

No tabuleiro político de 2025, poucas forças atuaram com tanta constância e eficácia quanto a Frente Parlamentar Agropecuária. Em um ano marcado por tensão comercial, guerra tarifária e disputas regulatórias internas, a FPA se consolidou como o principal eixo de estabilização institucional do setor. Foi ela quem conduziu a costura que garantiu a aprovação da Lei da Reciprocidade — hoje vista como o mais relevante mecanismo de defesa comercial do agro brasileiro em uma década — e quem articulou, em alinhamento com entidades representativas e setores do Executivo, respostas rápidas às assimetrias criadas por barreiras estrangeiras.

O peso político da bancada também foi determinante no debate da nova Lei Geral de Licenciamento Ambiental: após vetos presidenciais considerados excessivos pelo setor produtivo, a FPA liderou a reversão no Congresso, recompondo trechos que devolveram previsibilidade ao licenciamento de obras e reduziram a insegurança jurídica em projetos logísticos e agroindustriais. A vitória acendeu reações de ONGs e observadores internacionais, mas reforçou para o agro a imagem de uma bancada ativa, experiente e estrategicamente articulada, capaz de atuar tanto na defesa imediata do setor quanto na construção de um ambiente regulatório mais funcional e competitivo.

O ano também deixou lições claras para a estrada de 2026. Primeiro: a necessidade de combinar produtividade com governança socioambiental — não apenas por pressão externa, mas porque mercados de maior valor cobrarão cada vez mais rastreabilidade, práticas regenerativas e certificações. Segundo: a arquitetura de política pública — crédito, seguro, logística e pesquisa — precisa ser mais resiliente e previsível. Terceiro: a narrativa pública do setor tem de se modernizar: demonstrar resultados ambientais mensuráveis e rendimentos sociais, e ao mesmo tempo preservar a competitividade internacional. Quarto: a fragmentação regulatória e incertezas legislativas (como a discussão sobre licenciamento) podem gerar riscos que repercutam no preço do produto e no acesso a mercados.

Em suma, 2025 consolida o agronegócio brasileiro como ator estratégico, não apenas economicamente, mas politicamente e ambientalmente. Foi o ano em que o campo, por meio de capacidade produtiva, estrutura sanitária, articulação política e diplomática, e inovação tecnológica, respondeu a choques de grande monta e saiu do processo com capacidade renovada de influência. Mas saiu também com tarefas claras: aperfeiçoar a governança ambiental interna, reduzir gargalos logísticos, estruturar instrumentos financeiros mais sólidos e reforçar a transparência das cadeias produtivas.

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Para quem planta, cria, exporta e emprega no interior do país, a conclusão é prática: o Brasil segue sendo fornecedor insubstituível de alimentos, mas o caminho para manter esse papel exige mais do que safras volumosas, exige renovação institucional, investimentos em sustentabilidade mensurável e capacidade de diálogo interno e externo. Se 2025 provou algo, foi que o agro não é só um setor técnico: é um ator geoeconômico capaz de influenciar tratados, tarifas e agendas climáticas. E, nele, a partir deste ano, ninguém mais pode ignorar que decisões tomadas no campo reverberam em capitais e plenários do mundo.

Pilar Econômico

Em 2025, o agronegócio se firmou como o grande motor da economia brasileira, com o PIB do setor avançando 9,6% e chegando a cerca de R$ 3,13 trilhões, ajudando a segurar a inflação em torno de 4,4% e evitando um resultado pior do PIB geral num ano de desaceleração da atividade. Esse desempenho veio principalmente do aumento de produção e de exportações em cadeias como soja, milho, carnes e café, que compensaram parte da perda de margem provocada pela queda de preços internacionais e pelo custo financeiro elevado.​​

Para 2026, porém, o cenário é bem mais contido: a projeção é de crescimento em torno de 1% para o PIB do agro, com menos espaço para expansão de área, investimentos mais seletivos e maior dependência de ganhos de produtividade. Com crédito oficial escasso, juros ainda altos e bancos privados mais conservadores, muitos produtores devem recorrer a capital próprio, renegociação de dívidas e postergação de projetos — um retrato de um setor que continua sustentando a economia, mas entra no ano em modo de cautela.​

COP30

Em Belém, o agronegócio brasileiro não apenas reafirmou sua posição de potência global, como ampliou sua influência nas negociações climáticas e ganhou protagonismo inédito na arena internacional. Em meio às discussões sobre financiamento climático, adaptação e metas de redução de emissões para 2035, o setor apresentou um pacote de ações do setor produtivo que chamou atenção por combinar rastreabilidade, intensificação sustentável e redução de metano, temas considerados sensíveis na diplomacia do clima.

Além disso, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) assumiu o centro das atenções com a AgriZone, um espaço de demonstração científica e tecnológica montado em Belém em parceria com o Ministério da Agricultura. A área, instalada na Embrapa Amazônia Oriental, transformou-se numa vitrine global da agricultura tropical de baixa emissão, com sistemas agroflorestais, módulos de intensificação sustentável, cultivos biofortificados e painéis técnicos que mostraram como o Brasil combina produtividade, conservação e segurança alimentar.

Estudo apresentado pela Embrapa Territorial na COP30 causou surpresa: mostrou que 65,6% do território brasileiro permanece coberto por vegetação nativa, o equivalente a 5,58 milhões de km², uma área maior que toda a União Europeia. Desse total, os imóveis rurais respondem por 29% da vegetação preservada: 3,4% do país estão protegidos como Áreas de Preservação Permanente (APPs), como margens de rios, encostas e topos de morro, 17,9% são mantidos como Reserva Legal dentro das fazendas e outros 7,7% correspondem a vegetação nativa excedente, que poderia ser aberta, mas permanece em pé por decisão ou estratégia do produtor

Os produtores são obrigados por lei a manter a Reserva Legal (20% a 35% da propriedade, variando por bioma, como Cerrado ou Mata Atlântica) e as Áreas de Preservação Permanente (APP), como margens de rios e topos de morro.

Porém, a fiscalização mais dura em 2026 vai aumentar os custos para rastrear a origem dos produtos e adotar práticas de sustentabilidade ESG (Ambiental, Social e Governança).

A dimensão e o rigor técnico do espaço impressionaram delegações estrangeiras e foram elogiados publicamente pelo presidente da conferência, André Corrêa do Lago, que classificou a AgriZone como uma das contribuições mais relevantes do Brasil à COP30 por permitir que o mundo compreenda “como a agricultura tropical pode melhorar a vida das pessoas”.

Marco Temporal

Em dezembro de 2025, o Supremo Tribunal Federal (STF) retomou o julgamento e por maioria de votos considerou inconstitucional a interpretação que limita os direitos indígenas às áreas ocupadas em 5 de outubro de 1988, entendendo que tal direito não pode ser restringidos por lei ordinária (Lei 14.701/2023).

O Congresso prevendo essa decisão, adotou movimento em sentido oposto ao da Corte, em resposta, também em dezembro de 2025, o Senado aprovou a PEC 48/2023, que inclui como regra diretamente na Constituição, limitando os direitos indígenas às áreas ocupadas até 5 de outubro de 1988.

A tramitação da PEC, que ainda precisa passar pela Câmara, adiciona pressão política sobre o Supremo e prolonga a insegurança jurídica em regiões com sobreposição de registros, conflitos antigos e procedimentos de demarcação em aberto — um dos focos de atenção do agro em 2026.

Temporal Framework

In December 2025, the Supreme Federal Court (STF) resumed the trial and, by majority vote, declared unconstitutional the interpretation that limits Indigenous rights to lands occupied on October 5, 1988, holding that such rights cannot be restricted by ordinary legislation (Law No. 14,701/2023).

Anticipating this decision, Congress adopted a course of action contrary to that of the Court. In response, also in December 2025, the Senate approved Constitutional Amendment Proposal (PEC) No. 48/2023, which establishes as a constitutional rule the limitation of Indigenous rights to lands occupied up to October 5, 1988.

The legislative process of the PEC, which must still be considered by the Chamber of Deputies, adds political pressure on the Supreme Court and extends legal uncertainty in regions marked by overlapping land records, longstanding conflicts, and pending demarcation procedures, one of the central concerns of agribusiness in 2026.

Moratória Continua

O pacto, firmado em 2006 por tradings, indústria e ONGs para barrar a compra de soja produzida em áreas da Amazônia desmatadas após 2008, deveria funcionar como referência de sustentabilidade para o mercado externo. Mas nos últimos anos, o acordo passou a ser questionado por entidades de produtores e acabou sendo levado ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), abrindo uma contenda entre ruralistas, ambientalistas e compradores internacionais.​

No apagar das luzes de 2025 o STF deu uma decisão provisória (liminar) mandando parar, em todo o Brasil, todos os processos na Justiça e nos órgãos públicos que discutem a Moratória da Soja e leis estaduais contra ela. Isso significa que nada anda até o Supremo julgar o caso de forma definitiva, o que só deve acontecer em 2026. Nesse meio-tempo, fica um vácuo de regras: produtores, tradings e indústrias não sabem exatamente qual será a “regra do jogo”, e os importadores — principalmente europeus — passam a olhar o Brasil com mais desconfiança, justamente quando a UE se prepara para aplicar sua nova norma contra desmatamento (EUDR).

DESAFIOS

Crédito Rural: O enfrentamento das barreiras externas ocorreu em paralelo com desafios domésticos de política pública e crédito. Foi um ano de pressão sobre a política agrícola: mesmo com o Plano Safra 2025/26 recorde de R$ 516,2 bilhões, as contratações emperraram, e o setor voltou a conviver com um aperto nas linhas oficiais. A combinação de juros altos, critérios mais rígidos dos bancos e uma inadimplência rural que atingiu 8,1% no segundo trimestre, o maior nível em dez anos reduziu a fluidez do crédito justamente no período de maior necessidade do produtor.

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Entre julho e outubro, as concessões do novo ciclo somaram R$ 214,3 bilhões, cerca de 7% abaixo do mesmo período do ano anterior; quando se consideram apenas as linhas tradicionais do Plano Safra, excluindo operações de mercado, como Cédulas de Produto Rural emitidas com recursos captados por Letras de Crédito do Agronegócio, o tombo chega a 22%, com quedas expressivas em custeio (–20%), investimento (–38%) e comercialização (–24%). O estrangulamento afetou o fluxo de caixa das propriedades e reacendeu o debate sobre previsibilidade orçamentária, equalização de juros e a necessidade de instrumentos mais robustos em anos de estresse, um alerta que atravessou todo o calendário agrícola de 2025.

O Seguro Rural foi outro elemento posto à prova. A suspensão temporária das contratações do Plano Safra mostrou fragilidades: a falta de garantia do governo para cobrir parte dos juros e a ausência de ferramentas simples para o produtor se proteger das oscilações de preço deixaram pequenos e médios muito mais expostos. Ao mesmo tempo, começaram a aparecer mais alternativas no mercado, como contratos que travam o preço antes da colheita, seguros que pagam conforme a variação do clima ou da produção e serviços de crédito das novas fintechs rurais, o que ajudou muitos produtores a não perder tanto em um ano cheio de altos e baixos.

A Sanidade e certificações deram cartas no jogo de acesso a mercados. Em maio, o Brasil obteve reconhecimento internacional para importantes avanços sanitários: a Organização Mundial da Saúde Animal (OMSA) reconheceu o país como zona livre de febre aftosa sem vacinação em partes do território, um marco que abre mercados e reduz custos logísticos e sanitários para a cadeia bovina. O status sanitário, fruto de décadas de vigilância e investimento, funcionou como importante alavanca comercial num ano com muita turbulência nas tarifas.

Em 2025 foi ano de Consolidação Tecnológica. A difusão de agricultura de precisão, o uso ampliado de biotecnologia e bioinsumos, e a expansão de serviços digitais de crédito e de gestão elevaram a eficiência operacional média das propriedades. O etanol de milho cresceu fortemente (dados oficiais apontam saltos de produção), e iniciativas de cadeia curta e logística — do investimento em armazéns a modais de escoamento — tiveram destaque, ainda que os gargalos de armazenagem continuem sendo um nó estrutural que consome atenção e recursos. A conjunção de capital, tecnologia e serviços permitiu ganhos expressivos de produtividade em culturas como milho, café e algodão, e ajudou a compensar parte dos choques de preço no varejo e nas cadeias industriais.

Na área de infraestrutura, os gargalos de transporte continuam sendo um freio. A expectativa é de melhora pontual com a ampliação de terminais no Arco Norte e a conclusão de trechos prioritários da BR-163, mas ainda aquém do necessário para reduzir de forma consistente o Custo Brasil logístico. No modal ferroviário, a Ferrogrão segue sem sair do papel: o projeto ainda depende de aval do STF e de análise do TCU para que o governo consiga realizar o leilão, hoje projetado para 2026, o que empurra qualquer alívio efetivo nos custos de frete mais para o fim da década.

No clima, os modelos climáticos apontam consolidação de um La Niña fraco entre o fim de 2025 e o início da safra, com transição gradual para um novo El Niño. Esse padrão aumenta o risco de chuvas irregulares e veranicos em áreas do Centro-Sul e de excesso de umidade em outras regiões, exigindo escalonamento de plantio, manejo mais preciso e uso intensivo de ferramentas de monitoramento climático.​

Do lado da proteção, o seguro rural tende a ficar mais caro e seletivo: as seguradoras já projetam alta da sinistralidade em 2025 e 2026, após eventos extremos recentes, e apenas cerca de 10% da área plantada no Brasil conta hoje com cobertura, o que deixa a maior parte dos produtores exposta.

 

2026: UM ANO DE TRAVESSIA

O ano de 2026 deve ser marcado por um agronegócio operando no limite, entre restrições financeiras, incertezas climáticas e um mercado global com sinais tímidos de recuperação, ainda insuficientes para reverter o quadro no curto prazo. Analistas da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil  (CNA) apontam ajustes, não expansão: produção cresce moderadamente, via ganhos de produtividade, sem novas áreas por falta de crédito, juros altos e seletividade bancária.​

A previsão é de que seja um “ano-tampão”: sem força para uma retomada ampla do setor, mas crucial para reorganizar a estrutura de dívidas, ajustar operações e preparar a base para um cenário mais favorável previsto para 2027.

Depois de dois anos de choque de custos, clima difícil e queda de margens, o endividamento explodiu: a inadimplência em operações rurais a taxas de mercado saiu da casa de 3% em 2024 para mais de 11% em 2025, levando entidades a falar na maior crise de crédito rural desde o Plano Real.​

O setor entra em 2026 sem euforia, mas com senso de urgência: alongar prazos, renegociar passivos e reforçar capital próprio passa a ser prioridade para evitar uma quebradeira em cadeia, especialmente entre médios e pequenos produtores. Sobreviver bem à travessia, preservando caixa e capacidade produtiva, pode ser mais importante do que crescer — e será um dos grandes testes de resiliência do agro brasileiro.

No campo corporativo, a previsão é de que o número de fusões, incorporações e vendas de ativos rurais aumente. Empresas pressionadas por caixa buscarão consolidar operações ou se desfazer de áreas para reduzir alavancagem. Grupos de fora do Brasil e fundos de investimento podem ver agora a chance de entrar — com o preço mais baixo, vale estudar compra de terras ou participação em negócios rurais.

No campo do crédito, a oferta deve continuar represada. As linhas subsidiadas do Plano Safra 2025/26 já foram insuficientes para o tamanho da demanda, e a expectativa é que as taxas permaneçam pressionadas até pelo menos o segundo trimestre. Empresas e produtores com maior exposição em dólar continuarão vulneráveis, especialmente se houver pressão sobre o câmbio no início do ano por causa do ambiente fiscal. A indústria de fertilizantes estima leve alívio nos preços apenas no segundo semestre, condicionado à normalização das rotas logísticas globais.

No mercado internacional, o Brasil deve seguir ampliando participação em algumas cadeias — especialmente proteínas bovina e de frango —, mas enfrentará margens mais estreitas por causa dos preços internacionais ainda distantes dos picos observados no período pós-pandemia. A soja deve registrar recuperação modesta se o clima colaborar, enquanto o milho continuará pressionado pela grande oferta americana e do Leste Europeu. O café pode ser a exceção mais favorável, com expectativa de preços firmes e demanda sólida, embora a volatilidade siga alta.

Do ponto de vista regulatório, 2026 será um ano de escrutínio maior sobre sustentabilidade. A Europa avança com exigências ambientais mais rigorosas, e o setor brasileiro terá de lidar com a implementação prática dos protocolos de rastreabilidade e desmatamento zero. Na COP30, esse foi um dos temas centrais, e, em 2026, a cobrança internacional deve se intensificar. Isso aumenta custos de adequação, mas também abre portas para quem já investe em ESG e agricultura de baixo carbono.

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