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Capa da 21ª Edição

SOMOS O PAÍS DO AGRO

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Quando se pensa em países de grande vocação agrícola, a imagem que costuma vir à mente é a das extensas planícies norte-americanas ou asiáticas tomadas por lavouras até onde a vista alcança. A Índia, os Estados Unidos, a China e a Rússia, de fato, lideram em área cultivada no planeta. Mas, em um mundo que busca cada vez mais conciliar segurança alimentar com preservação ambiental, é o Brasil que ocupa um lugar singular.

O país é, ao mesmo tempo, uma potência agrícola e um dos grandes guardiões de recursos naturais do planeta. Nenhum outro, entre os grandes produtores de alimentos, preserva tanto e produz tanto quanto o Brasil. Essa realidade vem sendo confirmada não apenas por estatísticas nacionais, mas também por estudos internacionais de alta credibilidade, como o mapeamento global das áreas cultivadas realizado pela Agência Espacial Norte-Americana (Nasa), pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) e pela Food and Agriculture Organization (FAO) em parceria com o United States Department of Agriculture (USDA).

Segundo esses dados, o planeta conta com cerca de 1,6 bilhão de hectares de lavouras, o que corresponde a aproximadamente 11% da superfície terrestre livre de gelo. Deste total, a Índia permanece em primeiro lugar, reunindo em torno de 11% do total de áreas cultivadas do planeta. Na sequência aparecem os Estados Unidos, com cerca de 10%, e a China, com aproximadamente 8%. A Rússia mantém posição logo atrás, com participação semelhante à chinesa. O Brasil segue entre os cinco maiores produtores em área cultivada, com algo em torno de 65 milhões de hectares — cifra que equivale à soma das lavouras de países como Espanha e França.

À primeira vista, esses números poderiam dar a impressão de que o Brasil cultiva relativamente pouco quando comparado a outros gigantes agrícolas. Só que não. Enquanto várias nações europeias destinam entre 45% e 65% de seu território à agricultura, o Brasil utiliza menos de 8% de sua área total.

E é justamente aqui que reside a diferença. O Brasil alcança produtividade de ponta em uma área proporcionalmente muito menor, preservando mais de 66% de sua vegetação nativa. Na prática, o território nacional funciona como um mosaico: ilhas de lavouras e pastagens imersas em um vasto oceano verde de florestas, cerrados, campos e caatingas.

Paradoxo de Produtividade e Preservação

Esse quadro leva a um paradoxo curioso que é difícil para os estrangeiros entenderem. Enquanto países desenvolvidos já transformaram a maior parte de seus ecossistemas originais em áreas agrícolas, o Brasil ainda mantém a maior reserva de vegetação nativa entre todos os grandes produtores e vem ampliando, ano a ano sua produção agrícola, sem desmate ilegal, o que parece impossível.

A União Europeia, por exemplo, possuía mais de 7% das florestas originais do planeta. Hoje, resta apenas 0,1%. No Brasil, ao contrário, mais de 5,6 milhões de quilômetros quadrados, que representa uma área maior que toda a União Europeia somada, estão dedicados à proteção ambiental,

Isso só é possível graças a um conjunto de mecanismos legais, institucionais e tecnológicos que garantem a proteção da vegetação nativa mesmo diante da expansão agrícola. O Código Florestal estabelece não apenas os percentuais de preservação, mas também obriga a manutenção das Áreas de Preservação Permanente (APPs), que protegem margens de rios, nascentes e encostas. Para garantir o cumprimento dessas normas, os produtores devem se registrar no Cadastro Ambiental Rural (CAR), uma plataforma digital que permite o monitoramento de propriedades e da vegetação existente. Outro exemplo é o Programa de Regularização Ambiental (PRA) que oferece caminhos para que áreas degradadas sejam recuperadas ou compensadas, criando incentivos legais para que os produtores mantenham a conformidade.

A fiscalização é realizada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), órgão federal vinculado ao Ministério do Meio Ambiente, que, junto com órgãos ambientais estaduais, podem aplicar multas, embargos e exigir recuperação de áreas, caso se identifique uma área desmatada irregularmente. Esse acompanhamento é possível graças ao avanço da tecnologia de sensoriamento remoto: imagens de satélite, permite identificar mudanças na cobertura vegetal em tempo quase real, fortalecendo a fiscalização e prevenindo desmatamentos ilegais.

Sob o olhar implacável da fiscalização, cada propriedade rural deve obedecer às regras específicas que definem quanto pode ser explorado e quanto precisa ser preservado. A lei determina que uma reserva legal seja mantida dentro da propriedade, variando conforme o bioma: na Amazônia, 80% da área deve permanecer preservada (significa que se você comprar uma área de 100 hectares lá, só vai poder plantar em 20 hectares); nos cerrados dentro da Amazônia Legal, 35%; e nos demais biomas, como o Mata Atlântica, Cerrado e Pantanal, o mínimo preservado é de 20%. Além disso, as Áreas de Preservação Permanente (APPs), como margens de rios, nascentes, encostas e topos de morro, devem ser mantidas intactas independentemente do tamanho da propriedade. Isso significa que mesmo propriedades pequenas precisam conservar essas áreas críticas.

O proprietário deve registrar toda a propriedade no Cadastro Ambiental Rural (CAR), informando as áreas de preservação existentes, áreas utilizadas para produção e eventuais áreas degradadas. Caso alguma parte da propriedade não esteja conforme a lei, o produtor pode se inscrever no Programa de Regularização Ambiental (PRA), que oferece alternativas como a recuperação de áreas degradadas ou a compensação em outras regiões. Dessa forma, a legislação transforma cada propriedade em um espaço que combina produção e conservação, permitindo que o produtor rural explore economicamente a terra sem comprometer ecossistemas estratégicos.

Isso quer dizer que, na prática, o produtor rural brasileiro não é apenas responsável por alimentos, fibras e energia. Ele é também guardião de ecossistemas inteiros. Em média, de 50% a 80% das áreas de cada uma das 7.4 milhões de propriedades rurais (dados do CAR) são mantidas preservadas, em cumprimento ao Código Florestal. Sem se esquecer das APPs, que protegem rios, nascentes, encostas e topos de morro etc, fazendo com que funcionem como corredores ecológicos, fundamentais para manter o equilíbrio hídrico e climático.

Dados do CAR, sistematizados pela Embrapa Territorial, mostram que os imóveis rurais utilizam, em média, apenas metade de sua superfície para atividades produtivas (50,1%). A outra metade é dedicada, em grande parte, à preservação da vegetação nativa, que ocupa o equivalente a 25,6% de todo o território nacional. Isso significa que os produtores rurais – agricultores, pecuaristas, silvicultores e extrativistas – preservam, dentro de suas propriedades, 218 milhões de hectares de vegetação, área comparável à soma territorial de dez países europeus.

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Quando somadas às unidades de conservação integral (10,4%) e às terras indígenas (13,8%), as áreas preservadas e protegidas no Brasil alcançam 423 milhões de hectares, ou 49,8% do território nacional. Esse mosaico ambiental expressa um dos maiores patrimônios de biodiversidade do planeta e evidencia que a preservação não se limita a áreas oficialmente protegidas pelo Estado, mas se estende de maneira significativa ao interior das propriedades privadas.

Se considerarmos ainda as terras devolutas, áreas militares e imóveis não cadastrados, o total de vegetação nativa atinge 564 milhões de hectares, ou o equivalente a 66,3% do Brasil. Essa proporção, raramente reconhecida em sua total dimensão, coloca o país entre as nações que mais preservam seus recursos naturais. Para efeito de comparação, essa área equivale ao território de 43 países e 5 territórios da Europa.

Em alguns biomas, como o Pantanal, a Caatinga e os Campos do Sul, as pastagens nativas representam formas de conservação ambiental historicamente associadas ao uso sustentável pelo pastoreio extensivo. Quando incluídas nessa contabilidade, o Brasil alcança a impressionante marca de 74,3% de seu território ocupado por diferentes modalidades de proteção, preservação ou conservação da vegetação nativa.

Além da legislação rigorosa e da fiscalização efetiva, o paradoxo produtivo brasileiro só se tornou viável graças ao avanço da pesquisa e tecnologia agrícola, impulsionado pela criação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em 1973. Antes da Embrapa, a produção agrícola brasileira era rudimentar e dependia de técnicas desenvolvidas no estrangeiro, pouco adaptadas às condições tropicais, o que resultava em baixo rendimento. Para aumentar a produtividade a única solução era o desmatamento extensivo que levava a uma degradação do solo incontrolável.

A Embrapa fez isso introduzindo uma coisa impensável na agricultura do século passado: pesquisa e desenvolvimento tecnológico para toda a agricultura e a pecuária, com foco em aumentar a produtividade, reduzir impactos ambientais e adaptar a produção às condições dos diferentes biomas do país.

O que a Embrapa fez e faz:

  1. Melhoramento genético e sementes – desenvolve plantas e cultivares adaptadas a diferentes regiões, solos e climas, como soja, milho, arroz, café, feijão e pastagens resistentes ao calor e à seca.
  2. Manejo do solo e da água – cria técnicas de plantio direto, conservação do solo, irrigação eficiente e recuperação de áreas degradadas.
  3. Integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) – sistemas que combinam agricultura, criação de animais e árvores nativas em uma mesma área, aumentando produtividade e preservando o ecossistema.
  4. Controle de pragas, doenças e invasoras – pesquisa sobre controle biológico, defensivos agrícolas mais eficientes e manejo integrado de pragas.
  5. Agricultura de precisão e tecnologias digitais – uso de satélites, drones, sensores e softwares para monitorar culturas, planejar plantios e aplicar insumos de forma eficiente.
  6. Pesquisa em sustentabilidade e clima – estudos sobre impacto ambiental, gases de efeito estufa, adaptação às mudanças climáticas e conservação de biodiversidade.
  7. Transferência de tecnologia e capacitação – disponibiliza soluções práticas para produtores rurais, por meio de assistência técnica, manuais, treinamentos e softwares agrícolas.

Em resumo, a Embrapa cria soluções práticas, científicas e adaptadas ao Brasil, permitindo que os produtores aumentem a produção sem expandir a fronteira agrícola sobre áreas de vegetação nativa.

Para se ter ideia do salto provocado pela empresa de pesquisas, em 1970, a produção de grãos no Brasil era de aproximadamente 30 milhões de toneladas:

  • Café: cerca de 2,5 milhões de toneladas (aprox. 41,6 milhões de sacas de 60 kg), sendo o país o maior produtor e exportador mundial.
  • Arroz: cerca de 10 milhões de toneladas.
  • Feijão: aproximadamente 3 milhões de toneladas.
  • Milho: cerca de 6 milhões de toneladas.
  • Soja: produção ainda incipiente, com menos de 1 milhão de toneladas.

Hoje, na safra 2025/2026, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil deve colher cerca de 336,2 milhões de toneladas de grãos:

  • Soja: 167,3 milhões de toneladas, consolidando o país como maior produtor mundial;
  • Milho: 120,6 milhões de toneladas, segundo maior produtor do mundo;
  • Arroz: 11,4 milhões de toneladas;
  • Feijão: 3,4 milhões de toneladas;
  • Café: 3,2 milhões de toneladas, maior produtor do planeta.

É óbvio que a Embrapa não é a única responsável por este salto; ao logo dos anos e seguindo o exemplo, foram surgindo pesquisas em inúmeras universidades, institutos estaduais e centros privados de inovação. Mas a Embrapa deu a largada e mostrou que com sementes de alto rendimento, técnicas de plantio direto e manejo sustentável do solo e outras inovações era possível um aumento expressivo na produtividade agrícola, sem destruir o meio ambiente, como fizeram os demais países – principalmente no continente europeu.

Avanços na Produção Agrícola Brasileira

  • Soja: A produção de soja no Brasil passou de 1,5 milhão de toneladas em 1970 para 75,1 milhões de toneladas em 2011, um aumento de aproximadamente 4.907%. A área cultivada também cresceu significativamente, passando de 1,3 milhão de hectares para 24,2 milhões de hectares no mesmo período.Alice
  • Milho: Em 1970, a produção de milho era de cerca de 2,3 milhões de toneladas. Em 2011, esse número aumentou para 56,2 milhões de toneladas, refletindo um crescimento substancial na produtividade e na área cultivada.IEA SP
  • Café: O Brasil manteve sua posição como maior produtor mundial de café, com uma produção média anual de aproximadamente 50 milhões de sacas de 60 kg entre 2000 e 2010. Esse desempenho consolidou o país como líder global na produção e exportação de café .
  • Carne de Frango: A produção de carne de frango no Brasil saltou de 217 mil toneladas em 1970 para 12,9 milhões de toneladas em 2016, consolidando o país como o maior exportador mundial do produto

A pesquisa aplicada permitiu produzir mais alimentos, fibras e energia em menos espaço, conciliando alta produtividade com conservação ambiental, complementando o que a legislação e a fiscalização já impunham. Em outras palavras, a tecnologia transformou a forma de produzir, tornando possível o Brasil ser ao mesmo tempo um gigante agrícola e o país com a maior extensão de vegetação nativa preservada entre os grandes produtores mundiais.

O Cerrado: A Revolução Silenciosa

Um dos capítulos mais emblemáticos dessa história é a transformação do Cerrado. Até a década de 1970, a região central do Brasil era vista como improdutiva. Solos ácidos e pobres em nutrientes inviabilizavam cultivos de larga escala. Foi a ciência, liderada pela Embrapa e por universidades como a UFV (Universidade Federal de Viçosa) e a USP (Universidade de São Paulo), que mudou esse quadro.

Por meio de pesquisas em correção do solo, adubação fosfatada, melhoramento genético de sementes e técnicas de manejo, o Cerrado se transformou em um dos maiores celeiros agrícolas do planeta. Hoje, a região responde por boa parte da soja, do milho e do algodão exportados pelo Brasil. Essa revolução silenciosa mostrou ao mundo que era possível aumentar a produção sem recorrer a novos desmatamentos, apenas recuperando áreas antes improdutivas.

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Além da correção de solos, novas práticas agrícolas têm redesenhado o campo brasileiro. O plantio direto, por exemplo, que consiste em semear diretamente sobre a palha ou cobertura vegetal da safra anterior sem revolver o solo, tornou-se referência global. A técnica reduz a erosão, mantém a umidade e aumenta a matéria orgânica, trazendo ganhos ambientais e produtivos.

Outra inovação é a integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF). Nela, diferentes atividades se combinam em uma mesma área: grãos, pastagens e árvores. Esse modelo diversifica a produção, melhora a eficiência no uso da terra e contribui para reduzir emissões de gases de efeito estufa. Atualmente, mais de 17 milhões de hectares já são manejados com sistemas integrados, e a meta do governo é chegar a 40 milhões até 2030.

Na pecuária, a recuperação de pastagens degradadas é outro ponto-chave. Estima-se que cerca de 100 milhões de hectares tenham potencial para serem revitalizados, aumentando a produtividade sem abrir novas áreas. Programas como o ABC+ (Agricultura de Baixo Carbono) financiam essas práticas e consolidam o país como líder em intensificação sustentável.

Nos últimos anos, as startups do agronegócio, conhecidas como AgTechs, passaram a desempenhar papel crucial. O Brasil já é o segundo país com maior número dessas empresas no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Elas desenvolvem soluções digitais que vão de sementes adaptadas a softwares de monitoramento climático, sistemas de rastreabilidade e inteligência artificial aplicada ao manejo.

Esse ecossistema de inovação garante ao país ganhos de produtividade que permitem produzir mais em menos área, mantendo a competitividade internacional e respondendo a exigências crescentes de consumidores globais.

O Desafio

Em 2025, o agronegócio brasileiro enfrenta um cenário de fortes pressões externas, que combinam aspectos comerciais, ambientais e regulatórios. Mas não é mais um agente passivo e dependente de outras nações, para se curvar.

Os Estados Unidos, sob a atabalhoada administração Trump, por exemplo, vem impondo sanções econômicas rigorosas com tarifas que noutros tempos poderiam destruir a economia brasileira. Mas ele se esqueceu de observar que a balança comercial entre os dois países era superavitária para eles, isto é, eles vendem mais pra nós que vendemos para eles. E as exportações do agronegócio brasileiro deve ter um impacto em torno de 1,5% do total das exportações brasileiras.

Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), os produtos do agronegócio afetados pelas tarifas somaram US$ 5,4 bilhões em exportações no último ano, valor que representa cerca de 1,5% do total das exportações brasileiras do setor. Mesmo que todo esse volume fosse perdido, o que é improvável, já que alguns produtos, como castanha, polpa e suco de laranja, foram excluídos de uma primeira lista e outros permanecem em negociação, o impacto sobre o total das exportações do agronegócio se manteria relativamente limitado, mostrando que, apesar da gravidade simbólica das tarifas, elas não representam um risco sistêmico para o setor.

Outro desafio entra em vigor no final de dezembro deste ano. A União Europeia adotou medidas mais rigorosas em suas políticas comerciais, incluindo exigências de sustentabilidade. As novas regras, conhecidas como EU Deforestation Regulation (EUDR), obrigam os importadores a comprovar que produtos como soja, carne, café, cacau e madeira não estejam associados a desmatamento, independentemente do país de origem.

Diferentemente da Moratória da Soja, iniciada no Brasil em 2006 como um compromisso voluntário do setor privado para evitar a comercialização de soja cultivada em áreas desmatadas da Amazônia, a EUDR é uma obrigação legal, ampla e fiscalizável, que exige rastreabilidade completa da cadeia produtiva. Essas medidas representam uma crescente exigência internacional por transparência, rastreabilidade e responsabilidade ambiental, pressionando produtores, indústrias e governos brasileiros a adotarem práticas de produção mais sustentáveis e certificadas, sob risco de perda de acesso a importantes mercados globais.

A Moratória é outro exemplo. De acordo com a Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), estima-se que a política resulte em uma perda de aproximadamente R$ 20 bilhões anuais em receita só para o estado de Mato Grosso, afetando diretamente a economia local e a geração de empregos. Além disso, a moratória tem imposto restrições significativas à expansão da área cultivada com soja, mesmo em propriedades legalmente estabelecidas ou em processo de regularização fundiária. Essa limitação ao direito de cultivo tem gerado sérios impactos na economia e competitividade do estado, conforme destacado por representantes da Aprosoja Mato Grosso.

A moratória também tem sido criticada por afetar negativamente a livre iniciativa e a autonomia dos produtores rurais, especialmente em municípios que integram o bioma Amazônia e que se veem impedidos de fazer a originação de soja em áreas abertas legalmente. Essa situação é vista como um obstáculo ao crescimento econômico regional e ao desenvolvimento sustentável.

Mas tudo isso, para o Brasil, significa apenas desafios. Graças à legislação ambiental rigorosa e ao sistema de monitoramento por satélite, considerado o mais avançado do mundo, o país consegue comprovar a conformidade de grande parte de sua produção. Isso transforma exigências em vantagem competitiva.

Há também um aspecto intangível, mas estratégico: os agricultores brasileiros, ao manterem áreas nativas em suas propriedades, prestam serviços ambientais que beneficiam toda a sociedade. A floresta em pé contribui para a regulação climática, a conservação da biodiversidade e a manutenção dos ciclos da água. Essa função tem começado a ser reconhecida em programas de pagamento por serviços ambientais, que buscam remunerar quem protege.

O Futuro

O Brasil ocupa, assim, uma posição única. É o maior exportador de carne bovina, soja, café e suco de laranja; está entre os líderes em milho, algodão e frango; e mantém mais de dois terços de seu território preservado. É a prova viva de que é possível alimentar milhões de pessoas sem sacrificar ecossistemas.

Os desafios continuam, mas o modelo já construído é robusto. Em um mundo que precisa enfrentar ao mesmo tempo a crise alimentar e a crise climática, o exemplo brasileiro mostra que a agricultura do futuro passa pela união entre ciência, inovação e rigor ambiental e não pelo desmatamento desbragado e ocupação de território, como fazem as demais nações.

Mais do que uma potência agrícola, o Brasil é um laboratório vivo de sustentabilidade em larga escala. E sua experiência, cada vez mais, se apresenta ao mundo não apenas como diferencial competitivo, mas como contribuição essencial à segurança alimentar e ambiental do planeta.

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