O agronegócio brasileiro viveu entre 2019 e meados de 2023 um dos períodos mais prósperos de sua história. Margens extraordinárias, juros de um dígito e valorização recorde das commodities impulsionaram um ciclo de expansão acelerada em toda a cadeia — produtores ampliaram áreas, investiram em máquinas, armazenagem e tecnologia; revendas cresceram via fusões e aquisições; e o crédito fluiu com abundância — muitas vezes com pouca análise de risco.
Com a Taxa Selic próxima de 2% ao ano e rentabilidades líquidas que chegavam a 30% ou até 50% em algumas lavouras, o agro se tornou o principal motor da economia nacional. A alta liquidez e o otimismo atraíram novos entrantes de outros setores, consolidando o agro como destino preferencial do capital e símbolo de resiliência em meio à pandemia.
Mas, como em todo ciclo, o excesso de confiança e a ausência de governança financeira cobraram seu preço. A partir de 2023, o cenário mudou drasticamente.
A escalada da Selic para níveis próximos de 15% ao ano — o maior patamar das últimas duas décadas — redefiniu completamente o custo do dinheiro no campo. O crédito que antes sustentava a expansão passou a ser o vilão da rentabilidade.
Mesmo com uma safra recorde para o ciclo 2024/25 e uma estimativa de 353,8 milhões de toneladas para 2025/26, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) — o setor colhe resultados financeiros desanimadores. A rentabilidade do milho despencou até 92 % e da soja em torno de 36 % (dados de mercado). O resultado é o evidente paradoxo: produção em alta, lucro em queda e crédito cada vez mais escasso.
No segmento de crédito rural formal, a inadimplência nas operações com taxas de mercado atingiu 9,35% em agosto de 2025. Para contratos sujeitos a taxas de mercado, o montante de empréstimos diminuiu: por exemplo, em setembro de 2025 o volume para pessoa física caiu cerca de 40% em relação ao mesmo mês de 2024.
O modelo de crédito rural no Brasil ainda é majoritariamente baseado em confiança pessoal e histórico informal — o famoso “fio do bigode”. Em muitos casos, especialmente entre pessoas físicas, não há balanço, DRE ou fluxo de caixa projetado. Durante os anos de bonança, isso não representou obstáculo: margens elevadas cobriam falhas ou atrasos.
Além disso, segundo o Instituto Mato‑Grossense de Estudos Avançados (IMEA), na safra 2024/25 a participação das revendas no financiamento da soja em Mato Grosso caiu para 13%, enquanto tradings e indústrias retomaram 31,6% do financiamento
Segundo dados do Banco Central do Brasil, no início do ciclo 2025/26 (julho a setembro) o montante contratado no Plano Safra atingiu cerca de R$ 105,4 bilhões, representando queda de 18,5% frente ao mesmo período da safra anterior.
Para o ciclo 2025/26, o volume ofertado está em torno de R$ 516,2 bilhões para o setor empresarial, incluindo CPRs, e um total de até R$ 594,4 bilhões se consideradas todas as linhas ofertadas. Contudo, a contratação real está abaixo das expectativas, especialmente para médias e grandes empresas agrícolas.
O crédito não desapareceu por completo mas ficou mais caro, mais seletivo e concentrado. Operações de barter voltaram a ganhar importância não mais como estratégia, mas como alternativa de financiamento emergencial.
Consequências: um agro com rentabilidade comprimida e endividamento crescente; Produtores renegociando dívidas e alongando contratos sem resolver o problema estrutural; Ativos imobilizados, com desinvestimento difícil, dificultando a desmobilização em ciclos adversos; Revendas com margens corroídas, capital de giro caro, e resultados financeiros fragilizados; Bancos e instituições financeiras aumentando provisões de perdas e retraindo crédito novo para o setor agro; e, Crescimento de pedidos de recuperação judicial.
O agro brasileiro que sempre foi visto como símbolo de solvência, eficiência e retorno enfrenta agora um desafio de maturidade financeira.
Pode-se destacar os seguintes vetores estruturais: Juros elevados e ciclo monetário de aperto prolongado — a Selic em ~15% torna o capital de giro caro e impõe disciplina rígida ao produtor; Alavancagem excessiva na fase de bonança — produtores expandiram áreas e assumiram dívidas com custo alto; Queda nos preços das commodities e compressão das margens — diante de menor demanda global, maiores estoques e custos ainda altos, os produtores viram margem se reduzir; Custos de insumos elevados e persistentes após a pandemia — fertilizantes, sementes, defensivos e logística seguiram altos; Falta de governança financeira e análise de crédito — muitos financiamentos concedidos com avaliação superficial; Modelo de concessão informal — crédito baseado em relacionamento (“fio do bigode”), que funciona em bons ciclos, mas é vulnerável em momentos de aperto; e, Estoques caros e capital imobilizado — revendas e produtores compraram caro em 2022/23 e sofreram na reversão; lição de que a expansão rápida sem amortecimento de risco traz fragilidade.
Para que o agro consiga atravessar esse ciclo e preparar para um novo crescimento sustentável, algumas estratégias são fundamentais: Profissionalização da gestão financeira: produtores precisam dominar o fluxo de caixa, as margens, os custos variáveis, a amortização de dívidas e os prazos de pagamento; Uso de dados integrados para concessão de crédito: clima, produtividade, análise de custo, hedge de commodities e perfil de crédito devem compor o processo; Modelos híbridos de financiamento: combinar crédito bancário, barter, cooperativas, fundos de investimento e até mercado de capitais para diversificar risco; Reestruturação real de dívidas: não apenas alongamentos, mas refinanciamentos com avaliação da viabilidade da produção; Incentivo ao crédito verde e à sustentabilidade: programas como Renova Agro Brasil ou solo-vivo que financiam a recuperação de pastagens degradadas, solos e práticas sustentáveis, geram valor e mitigam risco; Educação financeira rural: formar produtores mais preparados para ciclos de juros altos, volatilidade de preços e necessidade de governança; Governança e diligência nas revendas e cooperativas: essas empresas precisam monitorar seu capital de giro, prazos de pagamento, mix de caixa vs prazo, e risco de crédito de seus clientes; e, Segmentação de risco para instituições financeiras: separar carteiras por nível de governança e perfil de produtor para ajustar critérios e taxas de juros adequadamente.
O agronegócio brasileiro chega à safra 2025/26 com uma safra recorde em perspectiva, mas com a liquidez mais baixa em uma década. O setor colhe hoje os frutos amargos de uma expansão acelerada, financiada por crédito farto e pouca disciplina financeira.
O momento exige realismo, prudência e gestão. A travessia será dura, mas também necessária para que o agro — esse gigante que alimenta o mundo — reencontre a rentabilidade e a sustentabilidade financeira.
Porque, no fim das contas, “agro é tech, agro é pop, agro é tudo— mas só será perene se for rentável”.
Antônio Prado, Engenheiro Agrônomo, CEO da Pirecal Calcário, Professor, Palestrante, Conselheiro de Empresas do Agro.














